Três anos de Acordo de Paris: terão sido feitos progressos satisfatórios em termos de combate das alterações climáticas?

06 Dezembro 2018

As alterações climáticas têm sido consideradas o maior desafio que a humanidade enfrenta no presente e nos próximos séculos. Na abertura da cimeira que está neste momento em curso em Katowice, Polónia, David Attenborough, o conhecido naturalista e apresentador de televisão britânico, falou mesmo do maior desafio da humanidade nos últimos milhares de anos.

Os impactos da intensificação do efeito de estufa estendem-se por todas as áreas da vida, da agricultura (crescentemente afectada por secas, episódios de precipitação extrema e tempestadas) à segurança dos edifícios (pense-se nos efeitos dos furacões, inclusive os que começam a atingir Portugal), da biodiversidade (muitas espécies estão a desaparecer por causa dos novos padrões climáticos) à saúde humana (propagação de vectores de doenças ‘tropicais’, influência das ondas de calor sobre problemas respiratórios, impactos sobre doenças cardio-vasculares).

Estamos, portanto, já a vivenciar alguns dos efeitos das alterações climáticas, que se agravarão inevitavelmente no futuro. Desenvolver medidas de preparação para esses impactos (normalmente designadas como políticas de adaptação) é fundamental. O caso dos incêndios florestais em Portugal ilustra essa necessidade, remetendo para uma multiplicidade de factores interconectados. Mas o maior desafio é reduzir massivamente as emissões globais de gases com efeito de estufa no sentido de mitigar as alterações climáticas e evitar os piores cenários.

Porque as alterações climáticas se ligam com (quase) tudo o que está no cerne das sociedades actuais – com fortíssimas necessidades energéticas, com mobilidade, com práticas industriais e outras -,  esta é uma questão eminentemente social, como discutido na secção Ideias. Ela implica não só os modos de organização social mas também valores e visões do mundo, e merece um debate alargado e continuado.

Há três anos atrás, o Acordo de Paris foi apresentado publicamente como um instrumento muito promissor para lidar com as alterações climáticas. No entanto, como acaba de ser anunciado, as emissões globais de gases com efeito de estufa deste ano são maiores do que nunca.

Três anos após a finalização do Acordo de Paris terão sido feitos progressos satisfatórios em termos de combate das alterações climáticas?

Este debate acolherá opiniões e comentários até dia 19 de dezembro de 2018, pelo que o convidamos contribuir com a sua opinião. Participe!

[Texto de Anabela Carvalho, investigadora do CECS]

Por um lado...

– Foi alcançado um acordo que envolve todos os países;

– No Acordo de Paris estão previstos mecanismos de revisão e aprofundamento progressivo dos compromissos dos Estados;

– Tem havido investimentos massivos em energias renováveis em muitos países (incluindo a China, os EUA e a Índia, os países com mais emissões de gases com efeito de estufa);

– Tem-se verificado uma acelerada (retórica de) inovação científica e tecnológica;

– As alterações climáticas têm vindo a ser crescentemente integradas na governação das cidades e de outras escalas espaciais;

– Há um conjunto alargado de iniciativas e movimentos cívicos em torno das alterações climáticas e da sustentabilidade.

Por outro...

– Os compromissos estabelecidos no âmbito do Acordo de Paris são voluntários para cada Estado (cada um propõe o que vai fazer para conter/reduzir emissões);

– As emissões globais de dióxido de carbono e de outros gases com efeito de estufa continuam a aumentar;

– O uso de transportes movidos a combustíveis fósseis, como o automóvel e o avião continua a aumentar enormemente, bem como as emissões resultantes da agropecuária;

– Os Estados continuam a apostar em trajectórias de crescimento económico assentes no aumento do consumo e da mobilidade (turismo, por ex.);

– As transformações societais necessárias são enormes (ao nível da organização do espaço, da mobilidade, das economias, etc) e não estão a ser postas em prática;

– A urgência da mudança é cada vez maior (se as emissões globais não começarem a ser reduzidas nos próximos anos será muito mais difícil evitar uma escalada nos impactos das alterações climáticas).

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  • Rui Dias

    Na realidade o único país desenvolvido com um regime democrático que está a reduzir a emissão de gazes com efeito de estufa, são os EUA, que por ironia se retiraram do Acordo de Paris.