Presidenciais 2021 no Twitter

11 Fevereiro 2021

Por muitos anos, Portugal foi visto como um exemplo de democracia europeia em que manifestações políticas de extrema-direita não possuíam muita representatividade. Apesar da emergência do discurso populista por todo o mundo, em Portugal este só se refletia em micro-movimentos, como aqueles identificados por um estudo que desenvolvemos em 2016, numa análise a mais de 1400 páginas de Facebook. O cenário atual mudou completamente em 2019 com a eleição do primeiro representante da extrema-direita em Portugal para a Assembleia Nacional.

Com o anúncio da candidatura a Presidência da República pelo deputado da extrema-direita, o sistema político em Portugal foi posto a prova com a presença de uma nova força e o surgimento de novas narrativas e discursos. O propósito do nosso estudo foi observar no Twitter de que forma as conversações em torno dos candidatos a presidente aconteciam e se seria possível observar mudanças nas estratégias de comunicação, tendo em vista o novo xadrez político. Dois pontos foram importantes para esta análise:

  1. Se a presença de uma candidato de extrema direita alteraria o discurso político;
  2. Como se organizaria a direta e a esquerda nesta nova arena.

Entre os dias 2 de novembro de 2020 e o dia 22 de janeiro de 2021, foram coletados mais de 420 mil tweets que fizessem menção a pelo menos um dos candidatos. Os dados foram coletados através da API do Twitter, com o auxílio do TCAT. Posteriormente, os dados foram tratados em R. De modo a observar a inclinação política dos utilizadores do Twitter, recorremos a uma análise qualitativa por amostragem (apenas os 100 mais ativos e os 100 mais mencionados a cada semana). Para ser enquadrado dentro de um espectro político, um de quatro indicadores deveriam ser observados (presença de apoio explicito a um candidato através da descrição da bio ou da foto de perfil; tweets que indicassem claramente a preferencia do utilizador nos últimos três meses; partilha de tweet de um dos candidatos; utilização de hashtags de apoio político a um determinado candidato).

Antes de um estudo mais aprofundado, foi desenvolvido relatórios semanais que procuravam descrever de que forma decorreu a campanha durante aquele intervalo. Resultados preliminares demonstram que pelo tom polarizador o candidato da extrema-direita dominou a conversação no Twitter, sendo o candidato mais mencionado e discutido. Utilizadores identificados como de esquerda tendiam a ser mais vocais e dinâmicas na suas interações (maior transversalidade dos conteúdos partilhados entre diferentes utilizadores), ao contrário de uma maior verticalização do discurso à direita (tendiam a ser bastante ativos entre os seus próprios seguidores). Curiosamente, o presidente re-eleito teve uma presença quase nula no debate online indicando que o Twitter em Portugal é ainda um espaço minoritário.

Podem encontrar os relatórios semanais no link abaixo: