Como será o amanhã?

21 Abril 2020

Este texto propõe reflexão a partir das inseguranças e do clima de medo sobre o que está por vir, tomando como referência as “tragédias” que o Covid-19 está promovendo na economia e, consequentemente, nas relações humanas. Apresentamos 9 argumentos distintos, mas correlacionados, com a “pretensão” de trazer para a centralidade do debate a condição humana. Trata-se de um conjunto de elementos que permite avançarmos (se é que iremos) depois do caos que se avizinha. Nesse esforço, utilizaremos dos recursos da “imaginação sociológica”, no sentido de prospecção de inversão da ordem estabelecida, como um trajeto que possa trazer o fito da esperança, dentro do contexto de uso do verbo transitivo direto e pronominal “esperançar”, da ação política, do almejar, do buscar e ao contrário do ato de espera.

Texto de Carlos Pimenta (Pós-Doutorando do ICS)
E-mail: carlospimenta@unifei.edu.br

NASA (Unsplash)

No presente, o isolamento não parece ser a consequência de maior gravidade diante do futuro que se desenha. As dificuldades se agravam quando pensamos sobre as estratégias mundiais políticas, econômicas e comunicacionais adotadas pelas escolhas em aceitar as “falsas verdades” ou “falsas notícias”, baseadas em discursos de ódio, de fundamentalista religioso e de violência de todos contra todos, antes da Covid-19. Genesini (2018), somando a um conjunto de estudiosos no campo das humanidades, denomina esse contexto de “pós-verdade”, traduzido em substituição da verdade pela percepção ou convicção pessoal sem nenhum vínculo com princípios ou com o fato social concreto.

A disposição em escrever este artigo foi a leitura de Sousa (2020) que destacou de Séguéla (1993, p. 13) alguns pontos de relevância a respeito do nosso tempo, verdadeiramente, sombrio: “[…] o poder não existe. A política despolitiza-se, a justiça mediatiza-se, a Igreja prega no deserto, a empresa já não tem poder, e quando a rua se enreda ela enreda-se. A nossa sociedade bipolariza-se, já não entre esquerda e direita, já que não significam grande coisa, mas entre os verdadeiros ‘reaças’ e os falsos modernos”.

Em outros termos, o nosso tempo é demarcado pela incerteza ou insegurança e, por este aspecto, a dúvida é pertinente: o futuro tem futuro? Como será o amanhã?

Dois pontos alimentam esta reflexão: as promessas da certeza (modernidade) e as possibilidades da incerteza (“pós” modernidade). Esses pontos inscrevem formas de comunicação sociais estabelecidas por um sistema de crenças, verdades e “pós”-verdades que ultrapassam a dimensão sanitária. Não se trata de hierarquizar as crenças, pois todos temos as nossas quer sejam racionais (ciência), simbólicas (religiões), políticas (ideologias), futebolísticas (adeptos) e por aí caminha a humanidade. A questão central é: para que serve e para quem “serve” essa(s) cegueira(s)[1]?Interpretado literalmente esse quadro que – pintado em momento de “normalidades” já é caótico, principalmente nos países “periféricos” (se é que temos periferia, pois ou estamos todos juntos ou a morte de todos se anuncia de tempos em tempos) – se agrava diante das incertezas do nosso tempo. Verdade é que o Covid-19 liquidou as crenças no capitalismo rentista, tecnológico e volátil, bem como escancarou a ineficácia das políticas de mercado, por não ter respostas aos graves problemas sociais de nosso tempo.

Superado a batalha contra o Covid-19, as incertezas não se afastam, ao contrário se ampliam. As perguntas são: por que ampliam? Qual é a convenção político-econômica possível? Quais transformações pressupõem as “revoluções” informacionais e tecnológicas para os acordos firmados no tempo e no espaço, em escala mundial?

Do isolamento atual, o difícil será convencer os gestores mundiais de plantão (em especial os americanos de Brasília e do Norte) que o socorro privilegiado não deve ser focado nos bancos e mercados privados. Compete ao Estado, por meio de políticas públicas austeras um papel preponderante nesse momento de “guerra”.

Uma tentativa de explicação. O quadro de irracionalidades e as crenças de nosso tempo já não dão conta da realidade. Estas, expostas por um “vírus” ou uma “gripezinha”, traz consigo uma máxima: temos que superar o modelo capitalista iniciado a partir do Consenso de Washington.

Não se trata de “percepções” ou “convicções”, embora as pessoas ultimamente as tenham de sobra nas redes sociais e nas novas modalidades de comunicação tecnológica. Trata-se de exercício de imaginação sociológica sobre fatos sociais concretos, os quais apontam para o futuro. Os argumentos de partida são:

Argumento 1- Com o fim da guerra fria, a queda do muro de Berlin e a implosão das repúblicas soviéticas o mercado passou a ter a voz hegemônica na geopolítica do mundo;

Argumento 2- As revoluções tecnológicas e informacionais fortaleceram as dinâmicas individualistas, de consumo e de posturas “meritocracias” (a vitória do mais forte sobre o mais fraco);

Argumento 3- As novas formas hegemônicas de comunicação promovem a velocidade da informação, mas apaga os registros da memória histórica, rejeita a verdade dos fatos e inviabiliza a ciência como uma via de explicação dos fenômenos da natureza, sociais, culturais etc.;

Argumento 4- O crescente processo de despolitização das pessoas, dos lugares e das instituições coloca em campo aberto a luta de todos contra todos, de nós contra eles ou de todos contra o outro, sem as devidas mediações institucionais.

Argumento 5- As mudanças geopolíticas do mundo diante das transformações causadas pelas alterações na lógica do tempo e do espaço: a condição “pós-moderna” (Harvey, 1993).

Argumento 6- Os Estados Unidos “deixou” de ser cabeça de chave nos encaminhamentos das políticas mundiais.

Argumento 7- A liquidez das relações (Bauman, 2008), a partir das dinâmicas culturais de “colonização contemporânea”, tendo como epicentro o ocidente e o apagamento do registro de outras experiências fora dessa lógica (Sousa Santos, 2000).

Argumento 8- O crescente e escandaloso aumento da pobreza no mundo pela concentração da riqueza e dos rendimentos nas mãos de “poucos”, mas produzida por todos nós.

Argumento 9- O processo de fabricação (e montagem) “transnacional” inviabiliza espaços de solidariedade entre as nações, bem como compromete as questões de segurança nacional e de desenvolvimento, por meio da dependência no campo da ciência e tecnologia.

Os argumentos explicitados poderiam ser interpretados distintamente pelas sugestões teóricas de Touraine, Eco, Morin, Nietzche, entre outros, partindo da seguinte dúvida: será que o futuro tem futuro? Se pensarmos pela perspectiva histórica: sim. Fica outra dúvida: quem fará a revolução?Esses argumentos são suficientes para afirmarmos que está em curso uma mudança (ou transformações radicais) na compreensão da ordem das coisas (políticas, econômicas, sociais, éticas etc.). Implica afirmarmos, também, que temos, como não fizemos em 1929, a oportunidade de mudarmos os rumos do mundo para que possamos romper com a “imbecilidade” do capitalismo selvagem e as práticas colonialistas e colonizadoras vigentes.

Na hipótese de Humberto Eco, essas novas formas de comunicação que compõem um sistema têm um caráter pendular e o “jogo” está em aberto – com “sinais” emitidos pela natureza, biologia, e convulsões sociais” – para todas as possibilidades.

Cétido com esses tempos, a partir do Niilismo de Nietzche, poderíamos apostar nas agruras que o futuro reserva. Seria de todo prudente acreditarmos na história como um vetor de transformações, visto que, segundo Marx & Engels (1998), “tudo que é sólido se desmancha no ar”. Contudo, o nosso tempo parece ter colocado no mesmo diapasão todas as diferenças e diversidades e, sintetizado pela “quebra” ou “rompimento” da modernidade, preferimos privilegiar um slogan do senso comum defendido pelo falecido cantor brasileiro Tim Maia de que: “tudo é tudo e nada é nada!”

Eis, o que chamamos de “pós-modernidade” e, ainda, por esses tempos, percebemos que “o que é não parece ser”, “o que é não pode ser” e “o que não é é o que tem que ser”.

Os questionamentos se desdobram em muitas frentes: o que é política na atualidade? O sujeito onde está? Em quais campos se estabelecem as disputas em que esse sujeito tenha representatividade? Quais os princípios que podem fundamentar os processos de atuação desse sujeito? Quem tem direito a ter direitos diante da complexidade da realidade posta? E por aí vai!

O que está na ordem das coisas não se comporta mais dentro da ordem das coisas. A questão posta em Touraine (1994) pressupõe que o sujeito tome a frente de seus processos pelo instrumento da consciência política, como aquele ser social que atua (ator), individual ou coletivamente, consciente ou não, dentro de seus espaços por direitos, participação e pertença.Ou saímos desse duro momento mundialmente solidários, cooperativos e com outras estruturas de relação e convívio ou, então, caminharemos a passos largos para um lugar sem voltas e saídas. Na problematização dos fatos, percebemos que os paradoxos e as contradições estão colocados e as formas de fazer das coisas (política, econômica, social, cultural, simbólica, ética, moral etc.) já não dão conta das demandas e problemas que a própria ordem mundial produziu.

Na amplitude de nossos tempos alguns senões: (a) “O pior é que a fé também não está de boa saúde”; (b) “que seremos nós amanhã ou não seremos?”; (c) “a ideia de que o futuro é incerto”.

Para perspectivar (como bem reivindica o verbo) o futuro do mundo a partir desse quadro pandémico requer atitudes que extrapolam o conhecimento hegemônico. Dentro das possibilidades, aparece o aumento da pobreza. Então: pobres, uni-vos! O que seria um acontecimento impressionante. Mas, efetivamos uma aposta na linha de Morin, no sentido de ultrapassarmos as dicotomias direita–esquerda, natureza–cultura etc., visto que reaproxima o homem e a natureza e torna possível perspectivas de “bem viver” (Acosta, 2016).

Acrescentamos: resta saber se as 62 pessoas mais poderosas do mundo[3], com a sua pirâmide de interlocutores (igrejas, estrutura econômica, sistema de comunicação, universidades, escolas, partidos políticos, governantes etc., etc.), querem reconhecer que este modo de organização não traz a paz social necessária, muito menos a segurança e a felicidade que a modernidade prometeu.A preocupação latente não é sobre quem tem condições de isolamento social e de ficar quieto em casa e nem com o funcionamento dos mercados. A preocupação, preponderante, deve ser com a vulnerabilidade de quase 3,4 bilhões de pessoas no mundo sem condições dignas de sobrevivência[2] e acesso a qualquer tipo de equipamento que lhes tragam segurança alimentar e expectativa de sobreviver diante dessa “pan-demo-demia”.

No esforço de síntese, tomando como referência a dúvida sobre o futuro, podemos dizer que o vírus Covid-19 evidênciou (o que já vem sendo anunciado a décadas por cientistas das sociais e humanidades, entre outros) a fragilidade de nossa escolha civilizatória e, concomitantemente, as nossas fragilidades relacionadas à natureza (e ambiental) e às questões de sociais.

O que virá depois do Covid-19 é uma incôgnita, mas denuncia a necessidade de outras rotas para o processo de civilização. Inclusive, aponta que um “novo sistema” se faz indispensável à sobrevivência das pessoas, da natureza e da vida.

Sem nenhum otimismo, insano, sempre tem uma porta e a história nos mostra. Basta sabermos se teremos a coragem para abri-la de forma coletiva, solidária, distributiva. A aposta está colocada a mesa e futuro é incerto, porém nos mete medo. O que vai sair de tudo não sabemos, mas, agora, abriu-se um espaço considerável e legítimo (político, econômico, social, moral, ético, biológico) para constituição de um outro caminho, horizontal, a ser, por nós, trilhado.

As incertezas são fundamentos para “escurecer” ou “pretejar”, na prospecção em busca da verdade por uma mistura que faça a amalgama de todas as coisas (considerando que a junção de todas as cores formam ou dão referência ao “negro”, palavra utilizada em larga escala para apontar “crises’ ou “escuridão”) e traga sentido à vida e à nova ordem mundial, do que “não é é o que tem que ser”.

[1] Alusão à obra “Ensaio sobre a cegueira” do escritor José Saramago.

[2] Dados fornecidos pela ONU, com base em informações do Banco Mundial de 2018. Disponível em:  https://nacoesunidas.org/banco-mundial-quase-metade-da-populacao-global-vive-abaixo-da-linha-da-pobreza/

[3] Dados extraídos do estudo da Oxfam (2016), divulgado pelo portal G1. Disponível em http://g1.globo.com/economia/noticia/2016/01/1-da-populacao-global-detem-mesma-riqueza-dos-99-restantes-diz-estudo.html

 

Referências Bibliográficas

ACOSTA, Alberto. O bem viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Paulo: Editora Elefante, 2016.

Bauman, Z. (2008). Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar.

Eco, U. (1998). Cinco escritos morais. Algés: Difel.

Genesini, S. (2018). A pós-verdade é uma notícia falsa. São Paulo: Revista USP (Dossiê pós-verdade e jornalismo), n. 116, p. 45-58. Disponível em www.revistas.usp.br›revusp›article› download

Harvey, D. (1993). Condição pós-moderna. São Paulo, Loyola, 1993.

Marx, K.; Engels, F. (1998) Manifesto comunista. São Paulo: Boitempo Editorial.

Morin, E. (2011). Compreender o mundo que aí vem. In Morin, E. & Viveret, P. Como viver em tempo de crise? (9-25). Lisboa: INCM.

Nietzche, F. W. (2000). Crepúsculo dos ídolos – ou como filosofar com o martelo. Rio de janeiro: Relume Dumará.

Santos, Boaventura de Sousa (2000). Crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência. São Paulo: Editora Cortez.

Séguéla, J. (1998). O futuro tem futuro. Lisboa: Publicações Europa-América.

Sousa, V.(2020). “O passado tranquiliza, o futuro mete medo”– Reflexões sobre o impacto social da pandemia da Covid-19, a partir do livro O Futuro tem futuro, de Jacques Séguéla (1998). Communitas Think Tank –Ideias. Online: http://www.communitas.pt/ideia/o-passado-tranquiliza-o-futuro-mete-medo

Touraine, A. (1994). Crítica da modernidade. Petrópolis, RJ: Vozes.