Nem a morte nos reúne

14 Abril 2020

Uma epidemia global, abrupta, sem termo. O vírus não se vê, não se ouve, nem se toca, mas apodera-se de nós. Contamina a um ritmo letal de que a vida não tem memória. Apóstolos da ciência, o desconhecimento desarma-nos. A vacina e a cura encobrem-se num nevoeiro sebastiânico. O poder está em estado de alerta e a sociedade em estado de alarme. De um momento para outro, sentimo-nos indefesos. O confinamento cristaliza esta vulnerabilidade. A adesão foi franca. Face ao perigo, encolhemo-nos e recolhemo-nos como caracóis.

Texto de Albertino Gonçalves (investigador do CECS)
E-mail: albertino@ics.uminho.pt

Kevin Bosc (Unsplash)

A pandemia, que mobiliza organizações e instituições nacionais e internacionais, configura uma calamidade pública que exige intervenção coletiva. Tudo é enorme, monstruoso, à medida de um olhar macrossociológico. Mas importa estar atento à pulsação das minudências quotidianas, senão privadas. Importa cultivar um olhar míope, microssociológico. Ver de perto o confinamento do mundo da vida, incluindo a interação, os rituais e as relações pessoais.

Não é de menosprezar a ideia, entretanto vulgarizada, de um afrouxamento dos laços sociais. O reverso aponta, com a crise, para um estreitamento dos laços à escala doméstica. Se as ruas estão desertas, as casas estão atestadas. Pior do que a compressão no espaço, é a extensão no tempo. O espaço partilha-se, mais ou menos, como dantes, mas de forma permanente e sem termo certo, o que configura uma experiência inédita. A gente acomoda-se e incomoda-se. Cada membro da família negoceia os seus recantos. A cada um, o seu nicho de intimidade e restauro da identidade. Sucedem-se refúgios individuais e encruzilhadas comuns. Dia após dia, afina-se a sensibilidade à intrusão. É tempo de stress. Desconheço os efeitos deste convívio forçado prolongado. Tanto pode reforçar a coesão e a harmonia, como pode degenerar em conflito e descompensação. Duvido que Zygmunt Bauman tenha previsto o presente cenário. Um afrouxamento dos laços sociais sistemático e do tamanho do planeta. Uma deriva das famílias numa espécie de esmigalhamento global. Convém moderar esta leitura. Diminuída ou não, a sociedade sobrevive. Em alguns sectores, de um modo intenso e com elevada carga emocional. Se uns abrandam, outros aceleram. Por ofício ou por solidariedade. Acresce que a sociedade não se reduz a matéria, nem o ator social, a um boneco articulado. O essencial da dinâmica social é intangível. Até numa situação de isolamento físico é possível cuidar das ligações e dos laços. As novas tecnologias permitiram-nos ganhar a aposta do intercâmbio à distância.

Nesta pandemia, a relação com o espaço assevera-se crucial. Há quem nunca saia de casa e há quem não o pode evitar. Expõe-se a uma experiência única em termos de proxémica (E. T. Hall). O espaço pessoal, a esfera da intimidade (G. Simmel) ou bolha de honra (E. Durkheim), comprime-se em casa e avoluma-se no supermercado, na padaria, na farmácia ou no posto de abastecimento. “Pelo menos, dois metros entre as pessoas”. Uma nova antropologia. O corpo parece um fole: acanha-se em casa e avoluma-se na rua. Um efeito Alice. Mais estranha do que a proxémica, é a relação com as pessoas: somos todos poluídos e poluidores potenciais. E afastamo-nos. Os olhares não se cruzam, esquivam-se, para vergonha humana.

Ocupa-se o espaço como se proporciona. Segmento a segmento. E o tempo, como o suportamos? As refeições nunca foram tão esmeradas, a limpeza tão infinita, os livros tão folheados… Enfrenta-se o tempo com a ajuda das novas tecnologias, a fada-madrinha da nossa vida borralheira. Televisores, computadores, telemóveis, consolas, videojogos, capacetes de realidade virtual e redes sociais animam o tédio e enganam o vazio. No Brasil, a internet registrou, no dia 23 de Março, um fluxo de tráfego de 11 Tb/s, contra 4,69 Tb/s ao longo de 2019[1]. Até as visualizações do blogue Tendências do Imaginário cresceram 77,9%.

O ecrã é um parceiro. Configura, com o usuário, uma extensão recíproca. Imaterial? Os sentidos andam baralhados (Derrick Kerckhove). O material e o imaterial, também. Até os olhos conseguem tatear (figura 1). Horas e dias a interagir com a máquina. Imersão? Transubstanciação e expansão. Os novos media franqueiam portas e janelas. Estendem pontes. São uma chave mestra. Graças ao telemóvel ou à Internet, as pessoas comunicam tanto ou mais do que antes. “Juntas à distância”!

Até os olhos conseguem tatear

Figura 1

A publicidade proclama o “milagre” das novas tecnologias. Nos anúncios, o ecrã surge como uma fatalidade, uma companhia incontornável. É um interlocutor, um parceiro de jogo ou de comunicação, sempre disponível para interagir. Os novos media, mais do que transformar a realidade numa ilusão, transformam a ilusão numa realidade, sensível (J. Baudrillard). “Dão novos mundos ao mundo”. É neste ambiente que o corpo “comanda” o ecrã e o ecrã se faz corpo. A grande evasão dos confinados.

O anúncio With Love, Jack!, da marca de whiskey Jack Daniel’s (Estados-Unidos, 26 de Março de 2020), faculta uma ilustração da química do homem eletrónico[2]. Atarda-se numa sequência de atividades que superam distâncias e barreiras: namora-se; conversa-se; disputa-se um jogo de xadrez com o adversário no telemóvel; partilha-se a refeição; promovem-se reuniões; simulam-se amigos; trocam-se palmadas; copiam-se gestos; brinda-se e festeja-se. Sem recurso às novas tecnologias, improvisa-se um ténis de mesa na cozinha e transforma-se o vidro do prédio num tabuleiro de jogo do galo (figura 2). Tudo acompanhado por uma garrafa ou um copo de whiskey. Na parte final, surge a frase: “Dear Humanity / Cheers to making social distancing / social. / With love, / Jack”.

Jogo do galo no vidro do prédio

Figura 2

Se a comunicação eletrónica reveste foros de salvação, a despedida dos mortos, sem exéquias, afasta-nos do purgatório.

““Só a morte nos reúne” podia ser refrão de uma dança macabra medieval. Mas não! É atual. Só a morte nos reúne quando a vida nos separa. Com ou sem compressão do espaço e do tempo. Com ou sem comunicação multimédia. Com ou sem próteses. Com ou sem liquidez. Com ou sem hiper-realidade. Com ou sem tribos. O mundo da vida, o mundo de cada um, não se encolheu, aumentou. E nós perdemo-nos nesse mundo! Neste tempo de laços, afectos, sentimentos e emoções, “só a morte nos reúne” é um aforismo do misto de desencontro e urgência que preside ao nosso modo de estar na vida”[3].

Os mortos passam para o outro mundo, trespassam, sem velório, sem missa e sem funeral. Palpita-me que os mortos não sentirão a falta. Mas para os vivos é fundamental. Há séculos que assim acontece. E se assim acontece há séculos, talvez haja motivo, e tenha bom efeito. Uma má despedida é um mau porto de partida. Sem fases e sem rituais, é um abalo da alma para a família, para os amigos e para a comunidade. É uma ferida sensível, identitária, simbólica e afetiva. É um mau recomeço para o futuro. O funeral é, porventura, o principal acontecimento ritual de uma comunidade. Mais que o batismo, o casamento ou qualquer outra cerimónia. Tão grave como a abreviação da despedida é o entorse no luto, uma fase de reparação que convoca os outros significativos. Só, ou quase, na despedida; só, ou quase, no luto. Entre os problemas decorrentes da pandemia, dois carecem especial cuidado. Como vão sair as famílias do confinamento? Como vão as famílias resolver as despedidas e os lutos amputados, atípicos? Em 2018, ocorreram em Portugal 113 051 óbitos. Uma média de 310 por dia (fonte: INE). Hoje, devido ao coronavírus, são mais.

[1] https://www.nexojornal.com.br/expresso/2020/03/29/Como-a-pandemia-afeta-a-infraestrutura-da-internet

[2] ver Anjos Tecnológicos: https://tendimag.com/2020/04/07/anjos-tecnologicos/

[3] https://tendimag.com/2015/12/07/so-a-morte-nos-reune/

 

Referências Bibliográficas

Bauman, Zygmunt (2006), Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos, Lisboa, Relógio d’Água. Creio que não é preciso.

Hall, Edward T. (1986), A Dimensão Oculta, Lisboa, Relógio d’Água.

Simmel, Georg (1981), Sociologie et épistémologie, Paris, P.U.F. pp. 223-238.

Durkheim, Émile (1924), Sociologie et philosophie, Paris, Alcan, 1924, p. 51.

Kerckhove, Derrick (1997), A Pele da Cultura, Lisboa, Relógio d’Água.

Baudrillard, Jean (1991), Simulacro e simulação, Lisboa, Relógio d’Água.

 

  • Theo Barreto

    Prezado Albertino, fico feliz em ler este seu texto. Em meio ao isolamento e confinamento necessário, ainda podemos pensar e nos expressar através da tecnologia. Contudo, me faço alguns dos seus questionamentos. Em específico: como sairemos desta situação que entramos? Se a dança da morte de Bergman não nos levar, triunfaremos e poderemos celebrar mais um aprendizado herdado por Aristóteles, a amizade. Abraços cordiais..

    Theo Barreto