Rumo à imitação sustentável?

28 Abril 2020

De perdigoto em perdigoto, um vírus simples forçou a paragem da relação produção-consumo, desagregando o social que havia sendo formado no último século. Daqui nascem várias inquietações. A principal é a da simplicidade: de perdigoto em perdigoto é o mesmo de que de imitação em imitação. Isto leva-nos a questionar pelas imitações globais que andamos a fazer e quão destrutivas essas podem ser. Estaremos agora no início de um estado nascente rumo a uma imitação global mais sustentável?

Texto de Pedro Rodrigues Costa (investigador do CECS)
E-mail: pedrocosta@ics.uminho.pt

Daryan Shamkhali (Unsplash)

Pode ser estabelecida uma certa proximidade entre a ciência das epidemias (epidemiologia) e a ciência das imitações (sociologia da imitação). Se “todas as epidemias começam pelo paciente zero” (Patino, 2019, p. 75), também as imitações começam pelo imitador zero. Além disso, nas epidemias um dos indicadores mais usados é o número médio de contágios causados por cada pessoa infetada, vulgarmente conhecido como R0 (0 de zero). Já nas imitações, a “infeção” que se contagia é a das ideias ou opiniões. Neste caso, o R0 da imitação é o número médio de contágio de ideias, opiniões ou invenções que um novo “hospedeiro imitativo” é capaz de fazer (Tarde, 1978).

Contudo, existe uma diferença decisiva no resultado final de ambos os processos científicos: a epidemia viral tende a alastrar-se planetariamente rumo a uma pandemia; o contágio imitativo tende a gerar um intelecto contingente, quer dizer, uma potencialidade que se pode tornar ato, modo de ser e modo de agir que vai condicionar, decisivamente, o sujeito na sua contingência (Costa, 2020).

De acordo com os dados anunciados pela Direcção-Geral de Saúde, o R0 da Covid-19 está situado ligeiramente acima do número dois, significando que cada pessoa infetada tende a contagiar, em média, duas pessoas. O mesmo é dito pela OMS (Organização Mundial da Saúde): a nível mundial o R0 situa-se entre o dois e o dois e meio (Freitas, 2020).

Aplicando a mesma analogia, questionemos: qual será o R0 de uma ideia nova ou de uma opinião, ou mesmo de uma invenção? É possível medir a transmissibilidade de uma imitação, como é feito com o contágio de um vírus? Será que, tal como nos casos dos infetados pela Covid-19, o R0 da imitação depende somente do grau de relacionamento ou de isolamento social? Ou existem outras variáveis, como por exemplo os níveis de engajamento (Fechine, 2018), a concorrer para a capacidade de transmissibilidade das imitações?

Para responder à primeira questão, é preciso considerar que sem hospedeiro o vírus não se move. Este não goza de autonomia propulsora. Porém, ao chegar e se fundir com o hospedeiro, alcança possibilidade de multiplicação e atividade. De um modo análogo, as imitações também não se movem sem hospedeiro e também se mutam neste. Com uma nuance: gozam da possibilidade de se instalarem em hospedeiros humanos e não humanos, como notícias, artigos, tratados, manuais, vídeos, filmes, processos digitais, movimentos sociais, etc.

Os média são, porventura, os hospedeiros com maior potencial de transporte dos germes da imitação. Possibilitam a movimentação e a propagação massiva de ideias, opiniões e sugestões, diretas ou indiretas. Mas não são os únicos: a escola é também um desses lugares de propagação massiva, onde os seus intelectos contingentes são compostos por conteúdos legitimados cientificamente, instalando-se, apreendendo-se e imitando-se; a família é outro desses propagadores de intelectos contingentes imitativos, através da propagação de valores, crenças e ideais que dialogam com o conjunto escola-média e também  com outros intelectos contingentes localizados, muitas vezes próprios e peculiares; Finalmente, todos estes se confrontam e se mesclam com o contágio imitativo que provém dos pares que convivem: amizades, colegas profissionais, colegas contingenciais. Destes derivam contágios imitativos habitualmente específicos, próprios, muitas vezes fechados e circunscritos e outras capazes de extravasar os seus limites através de hábitos, atitudes e modos de agir.

Há que considerar que, tal como os diferentes vírus (H1N1, Covid-19, etc.), nem todas as ideias ou opiniões que entram nas correntes de imitação contam com um R0 elevado, quer dizer, com uma transmissibilidade considerável (um R igual ao número de reprodução médio). Isto sugere-nos a resposta à segunda pergunta: é possível medir a transmissibilidade de uma imitação – isto se existirem quantificadores. Exemplifiquemos: um artigo de um jornal digital, com uma qualquer ideia lançada para imitar, consegue contar o seu alcance geral. Suponhamos que um artigo alcança inicialmente, no seu contador digital, cerca de 100 mil pessoas. Teríamos um R0 de 100 mil. Suponhamos agora que após esse alcance inicial, somente uma parte da ideia, apenas a parte mais simples, passa de cada um dos 100 mil leitores para três pessoas, em média. Teríamos agora 300 mil pessoas. A dificuldade aqui seria a de apurar esta segunda etapa de medição, quer dizer, de que modo é que essa imitação se concretizou. Claro que se, por alguma razão, essa ideia se instala, por exemplo, no poder legal e se transforma em lei, todos os habitantes sujeitos ao cumprimento da lei ficam sob a sua tutela. Tudo isto permite fechar, formalizando, um intelecto contingente capaz de hospedar imitações.

Por outro lado, importa mencionar que ao valor de R usado na epidemiologia é acrescentado como fator de medição a taxa de mortalidade. Isto permite obter uma relação entre contágio e consequência. Ora, no caso das imitações (R enquanto número médio de reprodução de imitações) será também necessário associar outros fatores, como a frequência com que essas imitações se instalam nos intelectos contingentes e, por sua vez, nas ações, nas práticas, nos pensamentos, nas sensações, nos comportamentos. Tal como o exemplo dado anteriormente, se o contágio imitativo alcança o poder e se transforma em medida política ou legal, significa que se torna “pandemia” num qualquer estado de direito, ou seja, que se instala no imenso intelecto contingente que paira sobre o sujeito social.

Respondemos assim, de certo modo, à terceira pergunta e iniciamos a quarta: o R0 da imitação não depende somente do grau de relacionamento ou isolamento social, pois outras variáveis, nomeadamente a de “engajamento” (Fechine, 2018) entre ideias, opiniões ou invenções e imitações, necessitam de ser afloradas e relacionadas para demonstrar a capacidade de transmissibilidade. Isto coloca-nos a pensar numa fórmula de cálculo da transmissibilidade da imitação que contenha, pelo menos, os quatro níveis do engajamento propostos por Siqueira & Bronsztein (2015, p. 148). A saber: envolvimento, interação, intimidade e influência. Assim, o envolvimento mediria o contato do sujeito com o conteúdo a imitar. A interação mediria a relação interativa do sujeito com o conteúdo a imitar. A intimidade mediria a ligação afetiva do sujeito com a imitação, onde se perceberiam sentimentos e opiniões. E a influência mediria o nível de recomendações da imitação sugeridas diretamente pelo sujeito.

Neste sentido, a fórmula de um R0 da imitação poderia ser qualquer coisa como o número de reprodução médio de imitações a multiplicar pelo engajamento, sendo este o resultado do produto do envolvimento com a interação e com a influência a dividir pela intimidade.

Noutro plano, e de acordo com os epidemiologistas, a varicela terá um R0 a rondar os cinco novos contágios, o sarampo entre três e 203 e o SARS-CoV de 2002-2003 situa-se nos três. Percebemos, pela fórmula que propomos, que só o sarampo terá um equivalente, e ainda assim muito distante, da capacidade de transmissibilidade de uma imitação social – sobretudo se essa tiver a possibilidade de se inscrever num qualquer propagador de ideias e opiniões. Se fosse comparado o potencial de afeção de uma imitação humana com a de um vírus, rapidamente perceberíamos que qualquer vírus ficaria longe da capacidade do humano em fazer circular as suas subjetividades e idiossincrasias mais contagiosas. Basta pensarmos no contágio imitativo do modelo recursos-produção-consumo, sobretudo se a este modelo associarmos o contágio imitativo da ideia de propriedade privada. Aí percebemos como um intelecto contingente varre um planeta e altera decisivamente todos os ecossistemas. Neste caso, temos um R0 de mais de sete mil milhões – mesmo entre os regimes que são contra a propriedade privada, já que usam como argumento a contra-imitação da apropriação privada (Tarde, 1978).

Por outro lado, e como já indiciamos anteriormente, se é verdade que um vírus morre por falta de hospedeiro, também é verdade que uma imitação cessa por falta de quem lhe possa dar continuidade. Há imitações que acabam definitivamente, como o exemplo de muitas práticas tradicionais de sacrifício animal orientadas para o divino; já outras têm capacidade de mutação, orientando-se em função de necessidades e motivações humanas geradas por intelectos contingentes dominantes – retomando o mesmo exemplo, relembramos que ainda hoje se imitam vários tipos de espetáculos que ao invés de justificarem os sacríficos de animais para o divino os justificam para as massas humanas. A continuidade das imitações depende, portanto, dos graus de aceitação ou de reprovação que os intelectos contingentes circulantes manifestam sobre os mais diversos temas.

Um exemplo pertinente e que nos permite continuar com a analogia dos vírus às imitações é a história das grandes pandemias que aconteceram ao longo do tempo, implicando a geração de ideias e de comportamentos no controlo de contágios. Uma das ideias mais imitadas passou a ser a quarentena, instalando-se com forte transmissibilidade no intelecto científico das epidemias. Contudo, essa mesma necessidade de proteger as pessoas nos períodos de contágio tendeu para que as autoridades aumentassem o controlo sobre os sujeitos. Isso gerou um efeito imitativo pernicioso: “quando as epidemias passaram, os poderes dirigentes ficaram fortalecidos e as liberdades das pessoas ficaram reduzidas, não sendo recuperadas” (Passos, 2020).

Ou seja, a história mostra-nos que as grandes crises humanitárias tendem a gerar novas individuações, marcas profundas que alteram intelectos contingentes e, consequentemente, comportamentos. A passagem de um estado para o outro, acompanhado pelas marcas dessa experiência traumática, implica uma forte possibilidade de mudança, porventura menor na estrutura existente e maior nos hábitos e práticas. A “historicização”, quer dizer, uma reflexão coletiva sobre o antes, o agora e o após (pandemia), abre a possibilidade de novos “estados nascentes”. Mas há nuances. Por exemplo: o estado nascente resultante de uma crise económica tende a ser comandando por forças utilitárias e económicas que transformam e inovam, mas que não criam larga solidariedade social. Já uma pandemia que resulta numa crise humanitária e que deriva de uma espécie de sentimento de superioridade por parte do humano ante a natureza, poderá ser o motivo para um novo estado nascente a emergir das dimensões da solidariedade (Alberoni, 1968/1975). Um estado nascente pós-pandemia assente na ideia de solidariedade, poderia constituir uma poderosa fonte de contágio imitativo e com um R0 elevadíssimo a nível planetário se as quatro dimensões do engajamento (envolvimento, interação, intimidade e influência) entre os sujeitos e a necessidade de mudança planetária se inscrevessem com toda a potência no intelecto contingente global.

Assim, e em potência, até porque se trata de uma experiência traumática motivada por afeções físicas, sociais, culturais e económicas, no período pós-pandemia reina a possibilidade de um não regresso ao que fazia mal ao planeta. Que “o que o vírus consegue com a humilde circulação boca a boca de perdigotos – a suspensão da economia mundial” (Latour, 2020), seja uma inspiração para novas ideias e consequentemente novas imitações, em que seja possível que os “nossos pequenos e insignificantes gestos, acoplados uns aos outros, conseguirão: suspender o sistema produtivo” (Latour, 2020). Que a quarentena que usamos para nos isolarmos do vírus seja o início de um conjunto de novas imitações que façam barreira “não apenas contra o vírus: contra cada elemento de um modo de produção que não queremos que seja retomado” (Latour, 2020).

As perguntas são, simultaneamente, metodológicas e éticas: como propagar uma ideia, que entre no intelecto contingente e seja imitada com um R0 planetário, capaz de evitar o retorno ao que faz mal ao planeta? Será o futuro o lugar de novos hospedeiros imitativos nascidos de um estado nascente mais sustentável e solidário para o planeta? Estaremos diante de um estado nascente fundado por intelectos contingentes cobertos pela sensação de que o humano tem pouco controlo da sua existência coletiva? De que tem noção do egoísmo e do egocentrismo que respira? De que não pode continuar a pressionar os diferentes ecossistemas gerando novos riscos e contínuas pandemias? De que necessita, mais do que tudo, de investir em ciência benéfica para o planeta e não para a geração de lucros?

Ficam algumas questões que o futuro tratará de responder. Mas fica uma certeza: andamos anos a ignorar e a subestimar o poder das imitações em todos os ramos, tal como o fizemos ao esquecer o perigo das pandemias geradas pelo nosso comportamento planetário. Agora é tempo de entender como esse esquecimento nos têm conduzido a uma postura desastrosa, irresponsável e, até agora, incapaz de ser decisivamente inscrita na vida humana. Digo incapaz de ser inscrita na medida em que a imitação nunca foi considerada a maior e mais poderosa ferramenta global, e que talvez por isso nunca tenha sido levada a sério tanto na sua capacidade de mutação como na sua capacidade de atingir níveis de pandemia mais perigosos do que os dos vírus. Eis-nos, pois, chegados até aqui, de imitação em imitação. Não é tempo de a levar a sério?

 

Referências bibliográficas

Alberoni, F. (1975). Statu Nascenti. Milão: Il Mulino.

Costa, P. R. (2020). Eu sou tu: tu és intelecto contingente. Neves, J.P., Costa, P.R., Mascarenhas, P., Salgado, V. (Eds). Eu sou tu – experiências ecocríticas. Braga: CECS (no prelo).

Fechine, Y. (2018) Transmidiação como modelo de produção: uma abordagem a partir de estudos da televisão e de linguagem. Massarolo, João; Santaella, Lúcia; Nesteriuk, Sérgio (Orgs.). Desafios da transmídia: processos e poéticas. São Paulo: Estação das Letras e Cores.

Freitas, A. C. (2020, 3 de abril). Covid-19: há um indicador chamado R0 que vale muito. Público. Disponível em: https://www.publico.pt/2020/04/03/ciencia/noticia/covid19-ha-indicador-chamado-r0-vale-1910730

Latour, B. (2020, 3 de abril). Imaginando gestos que barrem o retorno ao consumismo e à produção insustentável pré-pandemia. Jornal Clima Info. Retirado de https://climainfo.org.br/2020/04/02/barrar-producao-insustentavel-e-onsumismo/

Passos, N. (2020, 31 de março). As epidemias são frequentes na História, às vezes é que nos esquecemos. Nós – Jornal Online da Uminho. Disponível em: http://www.nos.uminho.pt/Article.aspx?id=3484

Patino, B. (2019). A civilização do peixe-vermelho: como peixes-vermelhos presos aos ecrãs dos nossos smartphones. Lisboa: Gradiva.

Siqueira, O. S. & Bronsztein, K.  (2015). Jogos sociais e publicidade: refletindo sobre os quatro níveis de engajamento digital do consumidor. Culturas Midiáticas, 14. Retirado de http://periodicos.ufpb.br/index.php/cm/article/view/24711

Tarde, G. (1978). As leis da imitação. Porto: Rés Editora.