Temas emergentes na área dos estudos do turismo: terrorismo e insegurança

02 Setembro 2019

O turismo e as viagens contribuem para o desenvolvimento de um país de várias formas. Entre outros motivos, porque criam empregos e atraem investimentos. Hoje em dia – e vários acontecimentos recentes o mostram – o turismo é também perspetivado como um setor vulnerável porque está fortemente dependente da capacidade de atração dos locais a visitar e das condições de segurança que aqueles oferecem.

Texto de Soraia Pereira Costa (mestranda em Sociologia) e Emília Araújo (investigadora do CECS)
e-mail: soraia_033@hotmail.com

Imagem de Matthew Henry (uso livre)

Só no ano de 2017, segundo dados da Global Terrorism Database, houve 10.900 ataques terroristas no mundo que vitimaram mais de 26.400 pessoas. Na sua maioria, estes ataques foram perpetrados através de assaltos com armas e bombas, entre outros meios violentos que deixam rastos de morte. Parte destes ataques verifica-se em cidades e/ou países com grande concentração de turistas. Um dos últimos atentados, no Sri Lanka, em abril de 2019, confirma esta dimensão do impacto do terrorismo no turismo e a forma como pode ser altamente catastrófico para os residentes e visitantes (DePuma, 2015, Bayramov & Abdullayev, 2018).

Através destes tipos de atos, que visam alvos turísticos – em locais de culto e de visita, aeroportos, hotéis e também espaços públicos – os terroristas selam mensagens de teor religioso, ideológico e político e semeiam o medo, assinalando o seu poder junto das comunidades envolvente, nacional e internacional (Neumayer & Plümper, 2016). De alguma forma, os turistas são sempre alvos fáceis, porque, independentemente do local, estão, como assinalam alguns autores, “num momento de distração e lazer” (Silva, 2016, pp. 45-46). Por isso, até certo ponto, é muito fácil conseguir “provocar medo e confusão em pontos turísticos”, de forma a “desestabilizar a economia local e nacional” (Silva, 2016, pp. 45-46). Segundo dados da Global Terrorism Database (p.2) as regiões do Médio Oriente, Norte de Africa, Sul da Ásia, África Subsariana e Europa Ocidental foram as mais visadas em ataques terroristas.

Os estudos tendem a frisar que os países que sofrem atentados terroristas acusam um significativo decréscimo do turismo (Neumayer & Plümper, 2016; Silva, 2016). A França e a Tunísia são exemplos mencionados no IEP – Institute for Economics and Peace(2016). Em alguns casos, os países estão em guerra ou com graves conflitos internos e, portanto, com fortes limitações à circulação. Mas, noutros casos, ainda que a insegurança seja elevada e o sentimento de risco possa ser perturbador, a existência de ataques no passado ou a ameaça no presente, podem não ser suficientes para dissuadir o turista, ou pelo menos, um certo tipo de turista que convive com o risco e a insegurança e, de certa forma, ou a ignora ou a consome na própria experiência turística. Trata-se de comportamentos que podem ser entendidos a partir de Jonh Urry, segundo o qual, o “caráter do olhar é fundamental para o turismo” (2002, p. 29), porque “o devaneio e a expectativa, ambos disfarçados são processos fundamentais para o consumismo moderno…. Na verdade, a satisfação nasce da expectativa, da procura do prazer, que se situa na imaginação” (Urry, 2002, p. 29). Daqui se entende que cidades debaixo de ameaça terrorista constante, como são Paris ou Londres, entre muitas outras, continuem a concentrar números crescentes e surpreendentemente altos de turistas durante todo o ano.

Por serem territórios marcados pela ameaça de terrorismo, são também áreas sob forte vigilância que se concretiza através de meios muito sofisticados de controlo nos próprios locais, nas zonas de fronteira e nos espaços de mobilidade e meios de transporte. Falamos da existência de câmaras em registo contínuo nos transportes, ruas, estações e locais de visita, registos digitais, impedimento ao uso de equipamentos metálicos e outros nas visitas a certos locais. Ou seja, meios que acabam por moldar e interferir na experiência turística, mediando-a e destilando nela medo e incerteza. Além disso, aumenta a sensação de redução da privacidade, a necessidade de esperar em vários destes locais e a necessidade de prestar informações sobre percursos. Apesar disso, os inconvenientes e constrangimentos da vigilância dão também ao turista uma sensação – eventualmente ilusória – de proteção, sendo que em grande parte dos casos, os lugares de circulação turística não incluem territórios mais degradados e perigosos das cidades.

De certa forma, portanto, o turismo, o terrorismo e a vigilância formam uma das tríades mais desencontradas nos tempos atuais que importa ter em conta, tanto em termos individuais, como coletivos – nacionais e transnacionais – se pensarmos nas políticas de segurança e vigilância nos locais visitados e o potencial de virem a ser alvo de atos de violência.

 

Referências bibliográficas

Global Terrorism 2017. Background Report. Retirado de https://www.start.umd.edu/gtd/

Neumayer, E. & Plümper, T. (2016). Spatial spill-overs from terrorism on tourism: Western victims in Islamic destination countries. Public Choice,169, 3-4, 195–206. Doi.org/10.1007/s11127-016-0359-y

Silva, A. (2016). Turismo e Terrorismo: Estratégias desenvolvidas em destinos turísticos afetados por atentados terroristas. Dissertação de Mestrado em Turismo, Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Retirado de https://sigarra.up.pt/flup/pt/pub_geral.pub_view?pi_pub_base_id=163269

Urry, J. (1996). O Olhar do Turista: lazer e viagens nas sociedades contemporâneas. São Paulo: Studio Nobel.

IEP. Institute for Economics and Peace (2016). Global terrorism Index. Retirado de http://economicsandpeace.org/wp-content/uploads/2016/11/Global-Terrorism-Index-2016.2.pdf

Elimdar Bayramov – Abalfaz Abdullayev (2018). Effects of political conflict and terrorism on tourism: How crisis has challenged Turkey’s tourism development. In D. Udvari B & É. Voszka É. (eds). Challenges in National and International Economic Policies (pp. 160–175). Szeged: University of Szeged.

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