Com tempo, sem tempo

06 March 2025

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Embora a sua designação remeta para o tempo, o slow journalism é um tipo de jornalismo que, para além do tempo que reclama para a produção jornalística, se define por características essenciais não só ao processo, mas também à identidade dos órgãos de informação que o produzem. É, por isso, não só uma forma de fazer, mas também uma forma de ser jornalismo.

Texto de Inês Gonçalves Mendes

Foto de Planet Volumes na Unsplash

O início desta investigação teve por base uma sensação de assoberbamento relacionada com a quantidade de informação que nos chega constantemente, pela dificuldade de a processar e de seguir um assunto até ao fim. Afogamo-nos num mar de informação (Postman, 1985/2006).

Parte daquilo que procurava com esta investigação era compreender o lugar do slow journalism no contexto jornalístico atual (marcado pelo imediatismo, pelo ineditismo, pela produção em quantidade e pela redução das redações), numa sociedade onde a velocidade impera, e estudá-lo em articulação com outros dois conceitos: o tempo (aqui entendido a partir das perspectivas sociológica, filosófica e antropológica) e a qualidade do jornalismo, pilar fundamental que justifica o slow journalism.

“À pergunta ‘o que é o tempo’, Santo Agostinho respondeu: ‘eu sei o que é o tempo, mas assim que me perguntas deixo de saber’. Uma resposta de grande sabedoria, já que para a mente humana a definição de tempo é difícil, se não mesmo impossível” (Maffei, 2014/2020, p. 47). O tempo, aqui entendido como uma construção social, é de difícil compreensão, mas a sua importância na sociedade é substancial porque permite a sua organização. Algo tão simples como coordenar os horários de comboios entre diferentes cidades, entre diferentes países, é possível devido à uniformização horária. O tempo é sinónimo de recompensa (férias) e castigo (prisão), vivemo-lo em público (por exemplo, trabalho) e em privado (tempo pessoal). Ainda assim, a forma como vivenciamos o tempo vai sofrendo alterações. Por exemplo, as novas tecnologias de informação e comunicação aceleraram a nossa perceção da temporalidade vivida em sociedade (a transformação do tempo sob o paradigma da tecnologia da informação, tal como modelado pelas práticas sociais, é uma das bases da nova sociedade em que entrámos; Castells, 1999). Alterou-se a concepção de espaço-tempo: o futuro passa a sobrepor-se ao presente. A vivência em rede deu origem a um tempo intemporal (Castells, 1999).

Percebemos que o tempo afeta a sociedade por inteiro. Nesse sentido, afeta os média também. A pressão para publicar mais e mais depressa, para se ser o primeiro a dar a notícia, tem lugar permanente nas redações e tem impacto no tipo de trabalho que os jornalistas conseguem e/ou podem desenvolver.

A pressa e a perseguição da novidade estão constantemente na mesa de negociações dos jornalistas, juntamente com a objetividade e a precisão (Widholm, 2016) — valores fundamentais ao jornalismo, colocados em causa pela falta de tempo e pela vontade de reportar primeiro, independentemente da verificação dos factos. Este cenário, em que a tónica está patente na quantidade e na simultaneidade entre o acontecimento e a publicação, tem vindo a afetar a qualidade do jornalismo. Com menos tempo para trabalhar — e ferramentas que tanto provocam esta falta de tempo, como procuram solucioná-la —, com redações cada vez mais diminutas, os jornalistas têm mais dificuldade em manter os padrões de qualidade das matérias a que dão forma. Também é possível colocar na equação as práticas de agregação (utilização de materiais de outros para produzir notícias) e de clickbait. O tempo, ou a falta dele, é uma questão que afeta não só a produção jornalística, mas também a receção do produto do jornalismo, visto que não temos tempo e capacidade para ler/ouvir/ver, e muito menos assimilar, todas as notícias que nos chegam. Ou seja, negligenciar valores como a precisão ou desvalorizar o jornalista enquanto gatekeeper e watchdog promove o aumento da quantidade de notícias e a velocidade a que estas nos chegam, comprometendo a qualidade do jornalismo e, também, a qualidade da receção.

A partir do estudo de modelos de qualidade do jornalismo, percebeu-se que o tempo é essencial ao desenvolvimento de rotinas e práticas orientadas para o jornalismo de qualidade, como é o caso da verificação de factos, da análise do contexto e da investigação em profundidade. Isto embora a rapidez também seja importante em alguns momentos — por exemplo, quando a atualidade do acontecimento é relevante.

Dada a discussão sobre a qualidade do jornalismo, e tendo em conta que o slow journalism não se circunscreve à sua dimensão temporal, estabeleceu-se uma ponte sólida entre ambos os conceitos — a busca pelo jornalismo com qualidade é a base fundamental que alavanca, e justifica, a existência deste tipo de jornalismo. O slow journalism “trata-se de uma nova forma de fazer jornalismo de qualidade com géneros e formatos tecnológicos distintos, empregando o tempo necessário para garantir à audiência ótimos padrões de qualidade” (Benaissa Pedriza, 2017, p. 145).

O slow journalism, como entendido ao longo do trabalho doutoral que desenvolvi, é um tipo de jornalismo cujos princípios se desdobram, como definido por Mendes & Marinho (2024), em traços identitários (anti-marca; conjunto de rotinas/práticas; extensão e bússola moral do processo comunicativo), no modo de atuar (reação ao paradigma vigente; tempos para a produção e consumo de informação; corretivo/crítica; good, clean, fair; foco na humanidade, espaço para temas e vozes menos ouvidas, transparência e cooperação), como se expressa (questiona géneros e formatos; princípios literários e narrativa; investigar em profundidade; mais do que o tempo; estética; etnografia) e no tipo de relação que desenvolve com os públicos (comunidade; participação; reflexividade; responsabilidade social). Além disso:

  • é um jornalismo não essencialista — o slow journalism é um tipo de jornalismo entre outros.
  • na sua raiz está a tradição do jornalismo: apresenta semelhanças com outros tipos de jornalismo anteriores, como o new journalism ou o muckracking;
  • prefere o long-form, enquanto formato de expressão, mas não se restringe ao mesmo;
  • a participação do público e a comunidade são duas características essenciais que distinguem este tipo de jornalismo de outros (a participação ocorre no financiamento e na agenda e procura o envolvimento dos públicos com os média; a comunidade envolve reflexividade e participação, responsabilidade social e transparência).

Foi a partir do entendimento acima exposto que se desenvolveu todo o trabalho e investigação que se seguiu, e que se elaborou o modelo de análise para conduzir a investigação que se centra no ponto de vista da produção e nas perceções dos jornalistas. De forma a investigar o slow journalism no contexto português e internacional (o que permitiu a comparação), foram selecionados dois casos de estudo: o Fumaça (órgão de informação português) e o Tortoise (órgão de informação inglês), estudados a partir de três dimensões (editorial/organizacional; produto; produção). A partir da pesquisa documental e das entrevistas em profundidade (semiestruturadas) recolheram-se os dados, que foram, posteriormente, estudados com recurso à análise documental, à análise de conteúdo e à análise temática (dependendo dos dados em causa).

A partir do trabalho desenvolvido percebeu-se que existem princípios basilares no slow journalism, nomeadamente (Figura 1):

Figura 1. Síntese dos princípios basilares do slow journalism

 

No que toca à estrutura narrativa (Figura 2) deste tipo de jornalismo percebeu-se a presença de:

Figura 2. Síntese da estrutura narrativa do produto de slow journalism

 

Por fim, e relativamente à produção jornalística, ficou evidente o valor do tempo (Figura 3 e Figura 4):

Figura 3. Síntese da produção de slow journalism

Figura 4. Síntese da produção de slow journalism  e questões levantadas

Entre outras conclusões, esta investigação levou-nos a perceber que o lugar do slow journalism é difícil: está, ainda, confinado às redações que a este tipo de jornalismo se dedicam e que questões como as associadas ao modelo de negócio permanecem sem uma solução estável. Isto é relevante porque, apesar da temporalidade com que estes órgãos de informação trabalham, também estes sentem a pressão temporal, sobretudo associada à relação entre a (baixa) frequência de publicação e o financiamento. Ainda assim, o trabalho em torno do slow journalism deixou em evidência que o tempo é necessário nas redações para que se possa produzir jornalismo de qualidade. E que para isso são necessários recursos humanos — que não precisem de se desdobrar em múltiplas tarefas — e sustentabilidade financeira.

 

Mendes, I. (2024). Slow journalism: Expressões, evolução e relevância numa sociedade sem tempo. O caso do Fumaça e do Tortoise [Tese de doutoramento, Universidade do Minho]. RepositoriUM. https://hdl.handle.net/1822/93673

 

Bibliografia

  1. Benaissa Pedriza, S. (2017). El slow journalism en la era de la “infoxicación”. Doxa, 25, 129–148. https://doi.org/10.31921/doxacom.n25a6
  2. Castells, M. (1999). The rise of the network society. Blackwell Publishers Ltd.
  3. Maffei, L. (2020). O elogio da lentidão. Edições 70. (Trabalho original publicado em 2014)
  4. Mendes, I., & Marinho, S. (2024). Slow journalism: A systematic literature review. Journalism Practice, 18(5), 1275–1305. https://doi.org/10.1080/17512786.2022.2075783
  5. Postman, N. (2006). Amusing ourselves to death. Penguin Books. (Trabalho original publicado em 1985)
  6. Widholm, A. (2016). Tracing online news in motion: Time and duration in the study of liquid journalism. Digital Journalism, 4(1), 24–40.         https://doi.org/10.1080/21670811.2015.1096611