A grande derrota: como a pós-modernidade nos engole por dentro
18 Setembro 2025
Vivemos rodeados de telas, números e promessas de progresso. Trabalhamos mais do que nunca, consumimos imagens sem parar, acreditamos na ilusão de que a tecnologia resolverá todos os problemas: da política à solidão. E, no entanto, nunca estivemos tão cansados, tão confusos e tão frágeis diante do futuro.
Foi desta inquietação que nasceu a tese A grande derrota, defendida na Universidade do Minho em 2025, que mergulha nas entranhas da modernidade e da sua filha rebelde, a pós-modernidade. O título soa pesado, quase apocalíptico. E talvez o seja. Mas mais do que anunciar um fim, este estudo é um retrato cru de um tempo em que as promessas de liberdade, bem-estar e sentido se esvaziam rapidamente.
Texto de Ricardo Zocca (Investigador CECS)

Imagem de Jon Tyson na Unsplash
O que é, afinal, a grande derrota?
A modernidade, que se ergueu com máquinas a vapor e fábricas iluminadas, acreditava no progresso contínuo. Havia fé na ciência, na razão, na técnica. Tudo parecia apontar para um futuro melhor. A pós-modernidade, pelo contrário, chega com cansaço. Desconfiamos das grandes narrativas, relativizamos verdades, fragmentamos certezas. Ganhámos diversidade, pluralidade, múltiplos olhares, mas perdemos o chão comum.
A “grande derrota” não é necessariamente uma batalha perdida contra inimigos externos. Trata-se da incapacidade de sustentar a vida com significado num mundo dominado pelo capital, pela técnica e pela velocidade. É o vazio que se instala quando tudo vira produto: o trabalho, o lazer, a arte, até a morte.
Três esferas da vida pós-moderna: trabalho, lazer e morte
Para dar corpo a esta reflexão, a tese mergulha em três dimensões universais da experiência humana: o trabalho, o lazer e a morte. Três pontos de apoio que estruturaram sociedades ao longo da história e que hoje se encontram em mutação radical.
O trabalho: do sonho de ascensão à precariedade permanente
No início do século XX, economistas como Keynes ou Mill imaginavam um futuro em que o trabalho humano seria reduzido drasticamente. As máquinas fariam o pesado, e restaria ao homem dedicar-se à cultura, à filosofia, à arte. Cem anos depois, a realidade é outra: trabalha-se muito, em condições muitas vezes precárias, e sob a promessa enganadora da meritocracia.
A ideia de que “quem se esforça consegue” é uma versão moderna do mito da pureza, como dizia Bauman. Mas essa pureza é ilusória. Num mundo de algoritmos, contratos temporários e plataformas digitais, o esforço não garante ascensão. Garante apenas sobrevivência, com sorte.
O lazer: quando até o descanso é capturado pelo consumo
O lazer, que poderia ser um espaço de liberdade, tornou-se refém da lógica do mercado. Assistimos séries em maratonas que mais nos exaurem do que nos descansam. A Netflix, estudada na tese, é exemplo perfeito: uma plataforma que promete diversidade, mas que funciona como fábrica de consumo massivo. Assistir virou um ato compulsivo, e não um espaço de contemplação.
A arte também sofre esse destino. O videoclipe do artista estoniano Tommy Cash, analisado na investigação, expõe esse grotesco: um humor ácido que mostra como tudo, até mesmo o choque, pode ser convertido em produto viral.
A morte: o tabu da pós-modernidade
Se o trabalho e o lazer se tornaram mercadoria, a morte virou um tabu. Outrora celebrada em rituais, transformada em mito, lembrada em cemitérios, hoje a morte é escondida. Ariès chamou-lhe “a morte proibida”. Vive-se como se ela não existisse, anestesiados por entretenimentos que afastam da consciência da finitude.
Mas, paradoxalmente, a morte aparece como espetáculo. Filmes, notícias, videogames e narrativas políticas recorrem a ela constantemente, ora como ameaça, ora como ferramenta de poder. Bolsonaro, Trump e outros líderes surfaram nesse imaginário, oferecendo “soluções fáceis para problemas complexos” em sociedades cansadas e divididas.
Quatro análises, um retrato do presente
A tese propõe quatro análises culturais que ajudam a perceber este cenário:
- Uma notícia política de 2019 no Brasil — que mostrou como sociedades divididas naturalizam o anômalo e reabilitam discursos autoritários.
- O videoclipe de Tommy Cash — um mergulho no grotesco e na ironia como reflexo de um tempo sem centro.
- O cinema contemporâneo — com obras como Parasita, Joker e Bacurau, que expõem a precariedade, a desigualdade e o mal-estar coletivo.
- A Netflix — símbolo de uma cultura de dados e consumo massivo, onde até o lazer é medido, controlado e rentabilizado.
Juntas, estas análises não oferecem respostas fáceis, mas um mosaico inquietante. Revelam uma sociedade que se olha no espelho e vê fragmentos, ruínas e promessas quebradas.
A economia como esfera-mãe
No fundo, o que liga todas estas dimensões é a economia. Não como ciência neutra, mas como cultura dominante. O capitalismo tardio tem uma característica voraz: transformar tudo em mercado. O lazer, a arte, a saúde, a vida íntima, nada parece sair ileso.
O crescimento desenfreado das fortunas bilionárias e a crescente exclusão social mostram o lado obscuro dessa dinâmica. Mas há também um risco para os próprios ultra ricos: se a maioria perde poder de compra, até a acumulação de quem está no topo fica ameaçada. É como um castelo erguido sobre areia movediça.
A ascensão do simplismo e populismo
Num mundo saturado de dados, informações e incertezas, muitos procuram refúgio na simplicidade, pois há uma dificuldade intrínseca em olhar criticamente para a situação corrente. É aí que discursos populistas florescem. Trump, Bolsonaro e outros líderes oferecem frases curtas, certezas absolutas e inimigos claros. A complexidade do real é substituída pela pureza de slogans.
Mas essa pureza é perigosa. Ela reanima fantasmas antigos: xenofobia, misoginia, perseguição a minorias, anti-ciência, além de fragilizar democracias. Não se trata apenas de política, mas de um sintoma mais profundo de sociedades exaustas e inseguras.
Um ciclo sem fim?
A “grande derrota” é, em última análise, o esvaziamento simbólico da vida contemporânea. É a sensação de que se trabalha sem sentido, descansa-se sem descanso e morre-se sem que se fale da morte. É a captura de tudo pelo capital e pela técnica.
Mas há também, no fundo, uma chama de resistência. Filmes como Parasita ou músicas como as de Tommy Cash revelam a insatisfação. Há inquietação no ar. Talvez estejamos à beira de ruptura, ou apenas repetindo ciclos de ascensão e queda, como tantas vezes na história.
O certo é que, ao olhar para o presente, a tese não se limita a lamentar. Ela convida a imaginar novos horizontes, ainda que frágeis. Convida a reviver e revisar utopias, a inspirar-se no potencial humano e, principalmente, a desejar mais para a humanidade.
Epílogo: imaginar Sísifo feliz
O estudo termina com uma imagem inspirada em Camus: a de Sísifo, condenado a empurrar eternamente uma pedra montanha acima. O fardo da pós-modernidade é pesado, mas talvez a saída esteja em encontrar sentido no próprio ato de carregar a pedra.
Reconhecer a derrota não é desistir. É aceitar que vivemos um tempo de transição, de crise e de paradoxos. E, a partir daí, procurar novos modos de vida, novas formas de comunidade, novas possibilidades de significado.
A pós-modernidade talvez não seja o fim, mas apenas mais um ciclo da história humana, feito de ascensão e queda, como todos os outros. O desafio é este: não deixar que a derrota seja total, e encontrar, no meio dos escombros, possibilidades de reconstrução.
Vivemos um tempo em que a técnica promete salvação, mas traz consigo novas formas de escravidão. A economia organiza tudo, mas cria desigualdades insustentáveis. O lazer é colonizado pelo consumo, e a morte é varrida para debaixo do tapete.
A grande derrota talvez seja inevitável. Mas reconhecer a sua existência é o primeiro passo para resistir. Como escreve Camus, é preciso imaginar Sísifo feliz! Não porque a montanha seja leve, mas porque na própria luta há a possibilidade de sentido.
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