Cultura, educação e desenvolvimento sustentável: uma conversa necessária
13 Outubro 2025
A cultura é a alma de uma comunidade, o tecido invisível que conecta pessoas, tradições e aspirações. No Brasil, essa conexão ganha contornos únicos nos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IFs), instituições que, por sua natureza e missão, estão intrinsecamente ligadas ao desenvolvimento local e à formação de cidadãos. Mas como a cultura se manifesta nesses espaços educacionais? Que papel ela desempenha na construção de um futuro mais justo e sustentável para todos? Minha pesquisa concentrou-se nessas questões, buscando desatar nós e costurar pontes entre a educação pública superior, a cultura e o desenvolvimento comunitário sustentável.
Texto de Lídia Carvalhaes (Investigadora CECS)

Imagem de Alessio Rinella na Unsplash
No exercício da docência há mais de 16 anos, a ideia de pensar como a cultura habita os ambientes educativos formais inquietava-me de uma maneira diferente da qual o faz nos dias de hoje, após finalizar meu curso de doutoramento em Estudos Culturais. Antes imaginava que a pouca e desvalorizada presença das linguagens artísticas na formação educacional, o que já é uma constatação preocupante, representava a cultura em sua total expressão. Tal confusão pode ter suas razões na própria compreensão da palavra cultura, devido à sua polissemia, além do uso recorrente do par “arte-cultura” ou “arte e cultura” nos discursos orais e escritos, muitas vezes entendido como uma coisa só, inseparável, por assim dizer.
Grosso modo, a percepção de que a arte é uma manifestação cultural, integrante de uma ou de várias culturas, e de que a cultura, num sentido mais amplo (concepção antropológica), engloba toda uma forma de vida, sendo a arte, portanto, uma parte deste todo, é geralmente bem aceita, porém nem sempre muito bem compreendida. Nesse construto de significados, a cultura pode enfrentar dificuldades em integrar e desenvolver ações no âmbito da formação educacional e profissional, justamente por uma compreensão redutora de suas possibilidades. Não que a arte em si, com todas as suas potencialidades, ocupe uma posição menos fundamental, não se trata disso, e sim de união de forças e de uma compreensão mais expandida de cultura que favoreça a interação dialógica e produtiva entre os saberes.
Dito isso, a inquietação mencionada no início, sobre o papel da cultura na educação, continua a provocar reflexões, a questionar práticas pedagógicas e suscitar novas abordagens, obviamente, entretanto, a amplificação do olhar exige mergulhos mais profundos. Nesse sentido, buscamos amparo nos postulados de Williams, quando se propõe a “distinguir entre a ideia de cultura como arte e a ideia de cultura como todo um modo de vida” (Williams, 2011, p. 67), ou seja, “usamos a palavra cultura nesses dois sentidos: para designar todo um modo de vida – significados comuns; e para designar as artes e o aprendizado – os processos especiais de descoberta e esforço criativo” (Williams, 1958, p. 4). Diante desse exercício reflexivo, os Estudos Culturais convocam-nos a estudar a cultura como forma de entender e transformar a sociedade. Este desafio reflete, portanto, nas dinâmicas desenvolvidas no contexto acadêmico, questionando não só os conteúdos, mas também as razões do seu estudo, a sua conexão com a comunidade em busca de um mundo mais justo, mais saudável e sustentável.
Enquanto profissionais envolvidos em processos educacionais e comprometidos com uma prática transformadora (Freire, 1992, 1996; Hooks, 2013, 2021), é natural, além de ser imperioso, que a questão da sustentabilidade integre o debate na sala de aula e nos incite a pensar sobre o assunto, sobretudo em tempos de crises, essencialmente a climática, mas também as que assolam a nossa saúde de forma mais direta, como a pandemia de Covid-19 o fez. Por conseguinte, buscar compreender as conexões (ou a falta delas) entre o papel da cultura na educação e no desenvolvimento sustentável me pareceu um caminho profícuo.
Nesse compasso, estudar sobre desenvolvimento sustentável, a sua relação com a cultura e com a educação, especialmente de nível superior, era imprescindível. Para nos ajudar na tarefa utilizamos, como pano de fundo, a Agenda 2030 da ONU e seus 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) (ONU, 2015), bem como os Indicadores de Cultura|2030 da UNESCO (Unesco, 2019). Embora não haja um ODS específico para a cultura na Agenda 2030, diversos autores (Martinell Sempere, 2015, 2020; Kóvacs, 2020; Cabral & Gehre Galvão, 2022) apontam a sua importância para o cumprimento dos ODSs. Há um consenso de que a cultura é transversal a todo o documento, mas há também a defesa para a implementação de ODSs específicos, conforme consta no Guia Agenda 2030: Integrando ODSs, Educação e Sociedade (Cabral & Gehre, 2020), que acrescenta três ODSs à agenda: ODS 18: Igualdade Racial, ODS 19: Arte, Cultura e Comunicação e ODS 20: Povos Originários e Comunidades Tradicionais (Cabral & Gehre, 2020), organizado no Brasil, sob a coordenação da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade de Brasília (UnB).
Para além desse debate, era necessário abordar as discussões em torno do construto “desenvolvimento sustentável”. Como sabemos, ambos os termos, “desenvolvimento” e “sustentável”, somam controvérsias. Contra o uso político da expressão, em defesa do desenvolvimento em sua dimensão integral, conforme a Declaração da ONU sobre o Direito dos Povos ao Desenvolvimento, de 1993 (https://www.onumulheres.org.br/wp-content/uploads/2013/03/declaracao_viena.pdf), e em consonância com Boff (2016, p. 45), “para ser sustentável o desenvolvimento deve ser economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente correto”, adicionamos o termo “comunitário” à expressão. A necessidade de uma abordagem mais próxima da realidade, em nível micro, onde, de fato, as coisas acontecem, incentivou esse incremento. Claramente, várias leituras e percepções a influenciaram, como a tese do “Bem Viver” (Buen Vivir) que “é, essencialmente, um processo proveniente da matriz comunitária de povos que vivem em harmonia com a Natureza”, uma filosofia em construção e universal, que parte das vivências indígenas dos povos andinos e amazônicos mas também está presente em diversas culturas, como na filosofia africana do ubuntu – “eu sou porque nós somos”, no fazer solidário do povo, nos mutirões em vilas, favelas ou comunidades rurais (Acosta, 2016, pp. 26 e 36).
Ademais, imbricado nessa ideia de comunidade, reside o sentimento de pertença, apontado por Maffesoli (2014, p. 24) como fundador das raízes próprias de estar-junto. Com base nisso, os IFs podem ser compreendidos como comunidades, articuladas internamente e externamente, pois “o espaço local é o fundador do ‘estar-junto’ de toda comunidade” (Maffesoli, 1984, p. 54). Outrossim, era necessário pensar em como a cultura estava (ou não) articulada nesses ambientes. Consequentemente, conhecer a organização política institucional da cultura nessas instituições e dialogar com a Agenda 2030 e os Indicadores de Cultura para o desenvolvimento era premente.
Assim, como professora de um IF e membro do Núcleo de Ciência, Arte e Cultura (NAIF)3 do meu campus, busquei aprofundar meus conhecimentos sobre os IFs, sob a ótica dos Estudos Culturais. A criação e expansão dos IFs, por meio da Lei 11.892 de 2.008, representaram um esforço para democratizar o acesso à educação em todo o território nacional, especialmente em regiões historicamente marginalizadas, com o intuito de promover o desenvolvimento local e regional. Os objetivos dos IFs abrangem desde o ensino profissional técnico de nível médio até a formação em nível de pós-graduação (mestrado e doutorado), oportunizando ao estudante o ensino verticalizado.
Realizamos, portanto, uma investigação de abordagem mista, quantitativa e qualitativa, estruturada em três etapas: a) análise documental de políticas culturais, existência de núcleos e/ou coordenações de arte e cultura (disponíveis nos sites dos IFs), além de um levantamento dos cursos mais alinhados com a temática da cultura, a partir das informações contidas na Plataforma Nilo Peçanha (https://www.gov.br/mec/pt-br/pnp); b) questionário online direcionado aos servidores responsáveis institucionalmente pela cultura ou que trabalham na área cultural das instituições investigadas e c) entrevistas semi-estruturadas realizadas com servidores das instituições participantes. Dos 38 IFs, 34 aceitaram participar da pesquisa. Desses 34, obtivemos respostas de 24 instituições.
Destacamos aqui os principais resultados:
A institucionalidade da cultura nos IFs:
Há um movimento notável de institucionalização da cultura, identificado por meio da formalização de políticas culturais, existência de núcleos e coordenações de arte e cultura na maioria dos IFs. Apesar dos avanços, a cultura frequentemente carece de orçamento específico, sendo muitas vezes dependente de recursos esporádicos ou de iniciativas individuais. Outro ponto a destacar refere-se à carência de profissionais qualificados em arte e cultura, o que limita a oferta de cursos e projetos. Acrescenta-se uma resistência de muitos professores em integrar atividades culturais, o que remete a uma lógica mais “técnica” ou “produtiva” e à incompreensão do papel essencial da cultura na formação integral. A cultura ainda é frequentemente vista como algo marginal ou “extra”.
Pontes entre a academia e a comunidade:
A maioria dos IFs possui uma infraestrutura física considerável, com auditórios, bibliotecas, quadras, pátios e áreas verdes, possibilitando que se tornem polos culturais importantes, especialmente em municípios afastados dos grandes centros, configurando-os, muitas vezes, como os únicos equipamentos culturais existentes naquele território.
Embora a relação com a comunidade necessite de maior integração, a pesquisa identificou parcerias exitosas com secretarias de cultura, ONGs, coletivos artísticos e comunidades tradicionais. Tais ações promovem a profissionalização, o desenvolvimento da autoestima e o fomento da cena cultural local.
É relevante enfatizar a formação verticalizada oferecida pelos IFs, sendo fundamental para a inclusão social, pois, de outra forma, as pessoas dessas localidades não teriam acesso à educação.
Cultura e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS):
Há ainda pouca discussão explícita sobre como as ações culturais nos IFs se conectam diretamente aos ODSs. Contudo, a pesquisa evidencia que os cursos, os projetos e as parcerias desenvolvidas contribuem indiretamente para diversos objetivos, nomeadamente: Educação de Qualidade (ODS 4), Redução das Desigualdades (ODS 10), Trabalho Digno e Crescimento Econômico (ODS 8), Cidades e Comunidades Sustentáveis (ODS 11) e Parcerias e Meios de Implementação (ODS 17).
A ênfase na sustentabilidade social, econômica e ambiental, presente na Agenda 2030, ressoa com a compreensão da cultura como um projeto social. Projetos de economia solidária, mapeamento cultural, formações em agroecologia e moda sustentável, por exemplo, demonstram como os IFs integram essas dimensões, promovendo um desenvolvimento comunitário que valoriza o local e a identidade. Desse modo, os IFs, com sua capilaridade e missão de desenvolvimento local, têm um papel fulcral a desempenhar na promoção da cultura e no cumprimento dos ODSs.
Apesar das limitações enfrentadas na pesquisa, como a vastidão do território brasileiro e a diversidade das realidades dos IFs, o estudo lança luz sobre a relevância da cultura e o potencial transformador dessas instituições. É um convite a “esperançar” – no sentido freiriano de uma ação em busca de um sonho – para que os Institutos Federais se consolidem cada vez mais como agentes corresponsáveis na construção de um futuro mais justo, inclusivo e sustentável para todos, um futuro que é cultivado dia a dia, com afeto, ação e presença genuína da cultura.
Bibliografia
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