O combate à desinformação através da educação começa ouvindo os professores

23 Dezembro 2025

A desinformação é um fenômeno que ganhou destaque nos últimos anos e está envolvido em inúmeras situações de prejuízo público ao redor do mundo. Considerando que este é um tema extremamente relevante para a nossa sociedade, compreendemos que deve ser cada vez mais trabalhado em sala de aula para preparar os cidadãos. Por isso, colocamos professores como protagonistas do estudo e procuramos entender o fenômeno para idealizar formas de abordagem em meio escolar.

Texto de Marina Silva (Investigadora CECS)

Imagem de jcomp na Freepik

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Podemos compreender a desinformação como um mecanismo – ou uma série deles – que envolve informações fraudulentas e que tem o objetivo de causar algum dano ou prejuízo público. Podemos citar, por exemplo, casos de desinformação no campo da saúde pública, como os tratamentos enganosos da COVID19 que viralizaram durante a pandemia, ou no campo da política, em Portugal, no Brasil, nos Estados Unidos e em vários outros países, revelando esse fenômeno como uma verdadeira ameaça à democracia.

Mesmo sendo um fenômeno antigo e inerente à nossa sociedade, as proporções da desinformação nos últimos anos se deve a uma “nova” circunstância a qual estamos expostos e dependentes: as tecnologias digitais de comunicação e informação. Estamos diante de um espaço propício para circulação em massa de desinformação e, com isso, conseguimos identificar alguns catalisadores para tal, como: o declínio do consumo de informações pelos meios de comunicação tradicionais, a nossa dependência do digital, a completa desordem informacional do digital, os desafios da regulação desse meio e o motor econômico das grandes empresas de tecnologia.

Dentre os pilares que consideramos catalisadores, destacamos aqui que o mundo digital e sua infinidade de funções e atribuições está pautado em um modelo de negócios com alto rendimento, baseado na captação dos dados dos utilizadores, do seu tempo e da sua atenção. Quanto mais tempo passamos nas telas, nas páginas, nos vídeos, nos conteúdos, mais alimentamos toda a engrenagem de publicidade e lucro do digital. Mas, afinal, por que temos que olhar para isso quando falamos sobre combater a desinformação? Porque entendendo a lógica das plataformas percebemos que pode haver uma intencionalidade nos conteúdos que acessamos e que a qualidade das informações que circulam online pode ser menos importante do que a engrenagem como um todo. Já nos disse, desde antes desse cenário digital, McLuhan: o meio é a mensagem (Mcluhan, 1964).

Além disso, vivemos em tempos que o diálogo e a pluraridade de ideias se tornaram uma dificuldade. Quando nos debruçamos em pensadores desse período, como Byung Chun Han, entendemos que há uma crise na comunicação, na democracia e no discurso, revelando uma característica comportamental da nossa sociedade contemporânea cada vez mais dependente do digital:

O discurso pressupõe a separação entre opinião e identidade próprias. As pessoas que não têm essa capacidade discursiva aderem de modo desesperado à sua opinião, pois senão ficariam ameaçadas de perderem sua identidade. Por esse motivo, a tentativa de dissuadi-las de suas convicções está condenada ao fracasso. Não escutam o outro, não escutam atentamente. O discurso, contudo, é uma práxis de escuta atenta. A crise da democracia é, antes que mais nada, uma crise de escuta atenta (Han, 2022, p. 35)  

Portanto, para além das questões técnicas que envolvem as problemáticas da desinformação, como as bolhas da internet, as deep fakes, mecanismos de comunicação potenciais para desinformação e o uso da informação como artifício de poder (Willians, 2021; Kupiecki et al., 2025; Han, 2022), estamos diante de um cenário de crise profunda social. Tais constatações nos guiaram para um recúo histórico e filosófico do conceito de verdade (Nietzsche, 1997; Schopenhauer, 1851; Nietzsche, 2007), consolidando a ideia de complexidade das nossas dinâmicas enquanto sociedade, que estão diretamente conectadas com o cenário proposto investigado.  Estas foram algumas reflexões que nos fizeram traçar uma linha de combate à desinformação com o apoio da educação, mais precisamente, da literacia midiática.

A literacia midiática, por sua vez, está em transformação perante os novos desafios do digital (Buckingham, 2019; Cooke, 2018) e parte da literatura estudada defende que esta é uma das formas mais eficientes de combate à desinformação (ERC, 2019; Multi-Dimensional Approach to Disinformation, 2018). Estamos diante de uma literacia importante para o empoderamento de uma cidadania crítica. Face ao cenário estudado, vimos, por exemplo, que é preciso trabalhar o desenvolvimento desta literacia considerando reflexões sobre o ambiente digital, capacidade de avaliação, trabalhar as nossas emoções, desenvolver o pensamento crítico, dentre outros pontos.

No livro Democracia e educação, Jonh Dewey argumenta que a educação está lado a lado com a essência de nação vislumbrada pelos poderes responsáveis de construir o sistema educacional, assim sendo, se refere a uma força motriz do que se idealiza para uma sociedade (Dewey, 2007). Com essa visão do poder da educação, buscamos compreender as ideias de Paulo Freire sobre ensino crítico e educação para liberdade e o diverso papel dos professores nesse processo. Por esta razão, reconhecemos os professores como um dos atores importantes no processo da educação e, consequentemente, no desenvolvimento da literacia midiática.

Concebendo que no âmbito da educação os professores estão em uma das linhas de frente de combate à desinformação e tendo em conta que a reflexão conduz a prática (Freire, 2003), assumimos como basilar a necessidade de conhecer e refletir sobre as representações que os educadores possuem deste contexto. Por isso, colocamos os professores como protagonistas no nosso estudo, para responder duas questões principais: Que representações sobre a desinformação demonstram ter professores do ensino básico e secundário de Portugal? Os professores operacionalizam este tema em sala de aula?

Para responder estas questões, optamos por utilizar o método da investigação-ação com técnicas de recolha de dados quantitativas e qualitativas. Aplicamos um inquérito online para professores de todo o país, que obteve 286 respostas, com variações em questões abertas. Depois, iniciamos uma investigação-ação em um agrupamento escolar composto por quatro escolas. Nesse processo foram conduzidas 25 entrevistas.

Diante do exposto, a etapa de investigação empírica constituiu um período de aprendizado profundamente significativo, o qual nos fez entender as discrepâncias entre teoria e prática e a importância de ouvir atentamente o público do estudo. A título de exemplo, percebemos uma forte necessidade de formação sobre o tema da desinformação, sendo que é imprescindível sublinhar que entendemos que as carências encontradas estão conectadas as fragilidades de um sistema educacional como um todo e não especificamente dos professores que participaram desta investigação. Além disso, nos deparamos com o cotidiano de muitos desafios da profissão do professor: escassez de tempo para trabalhar temas transversais, sobrecarga, múltiplos papeis, sensação de desvalorização. Portanto, verificamos que existem lacunas significativas na área da educação que precisam ser consideradas para desenvolver propostas como a deste trabalho.

Com o tratamento das entrevistas, produzimos e aplicamos um material de apoio de combate à desinformação, que passou por alterações em conjunto com professoras participantes da pesquisa, e a sua versão final foi utilizada por 12 professores do mesmo agrupamento. Propomos nesse material uma breve contextualização teórica, parte do enquadramento do trabalho, para responder algumas fragilidades identificadas nas entrevistas. Incluímos também propostas de reflexões no contexto pretendido e seis atividades completamente prontas direcionadas a alunos 1º e 2º ciclos, assim como para o 3º ciclo e o 10º ano do ensino secundário. Essas atividades contemplavam diversas aprendizagens associadas como: empatia, trabalho em equipe, pensamento crítico, habilidades de pesquisa e diálogo. Os professores tiveram autonomia para aplicar e desenvolver essas atividades que abordavam temas como: a diferenças entre opiniões e fatos, como identificar uma informação falsa, bullying e ciberbullying, reflexões sobre o digital, reflexões sobre temas sensíveis de direitos humanos e relacionados com a temática da desinformação, incentivo à leitura e produção de vídeo.

Com isso, fizemos observação direta da aplicação das atividades e vimos em campo que parte dos professores têm interesse em participar, criar e aplicar materiais ou atividades como estas, apesar de todo desafio do cotidiano da profissão. Presenciamos muitas sessões com professores entusiasmados, ainda que houvesse exaustão por razões diversas.

Portanto, com todo o percurso compreendemos e defendemos que para combater a desinformação através da educação, devemos ouvir os professores. Consideramos que não podemos fazer propostas teóricas sem compreender atentamente a prática de quem ensina. Nesse sentido, entendemos que dar voz à quem educa é como um alicerce fundamental para a criação de propostas de combate à desinformação e, possivelmente, para as cidadanias, “analógica” e digital.

Além disso, conseguimos ter clareza sobre a necessidade urgente da regulação das mídias digitais de forma mais eficiente e que perceber a desinformação como um fenômeno complexo, significa entender que o seu enfrentamento se faz também de forma indireta, reforçando noções de humanidade e empatia.

Bibliografia

  1. A multi-dimensional approach to disinformation. (2018). European Commission. https://doi.org/10.2759/0156
  2. Buckingham, D. (2019). The Media Education Manifesto. Polity Press.
  3. Cooke, N. A. (2018). Fake News and Alternative Facts – Information Literacy in a Post-Truth Era. ALA Editions.
  4. Dewey, J. (2007). Democracia e educação. Didáctica editora.
  5. ERC. (2019). A DESINFORMAÇÃO – CONTEXTO EUROPEU E NACIONAL. ERC – ENTIDADE REGULADORA PARA A COMUNICAÇÃO SOCIAL.
  6. Freire, P. (2003). Pedagogia do Oprimido. Paz e Terra.
  7. Han, B.-C. (2022). Infocracia: Digitalização e a crise da democracia. Editora Vozes.
  8. Kupiecki, R., Bryjka, F., & Chlon, T. (2025). INTERNATIONAL DISINFORMATION: A handbook for analysis and response. BRILL.
  9. Mcluhan, M. (1964). Understanding Media: The Extensions of Man. CULTRIX.
  10. Nietzsche, F. (1997). Humano, Demasiado Humano (2o). Relógio D’Água.
  11. Nietzsche, F. W. (2007). Sobre a verdade e mentira no sentido extra-moral (F. de M. Barros (Ed.)). Hedra.
  12. Schopenhauer, A. (1851). Religião: um diálogo (pp. 1–21).
  13. Willians, J. (2021). Liberdade e resistência na economia da atenção: como evitar que as tecnologias digitais nos distraiam dos nossos verdadeiros propósitos. Arquipélago editorial.