Viver em Portugal: Conteúdo e trabalho digital

18 Fevereiro 2026

O tema da imigração ganhou, nos últimos anos, grande visibilidade pública e passou a ser marcado por tensões, expectativas e disputas de narrativas, cada vez mais moldadas por plataformas digitais. Em Portugal, a comunidade brasileira – hoje a população estrangeira mais numerosa no país – destaca-se também nesse ecossistema comunicacional. É neste cenário que se insere o estudo que investigou como youtubers brasileiros em Portugal transformam a experiência migratória em eixo central das suas carreiras digitais e como a plataforma, enquanto infraestrutura de mediação, participa dessa dinâmica sociotécnica.

Texto de Dalvacir Andrade

teclado e logotipo do Youtube

Imagem de Zulfugar Karimov na Unsplash

 

YouTube e a migração como trabalho digital
Quando a experiência migratória se torna objeto mediático digital, a pergunta desloca-se. Para além de iluminar trajetórias de mobilidade, integração e pertença, interessa observar como essas vivências são narradas, editadas, distribuídas e rentabilizadas. Nas plataformas digitais, múltiplos atores entram em cena: além dos próprios imigrantes no papel de criadores de conteúdo, intervêm políticas, diretrizes, métricas, interfaces, anunciantes, audiências, entre outros elementos que coproduzem o fenômeno comunicacional. Há, assim, uma intersecção entre migração, comunicação e trabalho digital. Nesta confluência, se localiza a tese Youtubers e Migração: A dinâmica comunicacional sociotécnica do trabalho digital de imigrantes brasileiros em Portugal.

A investigação situa-se no contexto da onda migratória do Brasil para Portugal, intensificada a partir de 2017, observando como o tema “viver em Portugal” se consolida como um segmento de conteúdos no Youtube, funcionando como um espaço informal de informação e orientação, mas sempre sob condicionantes infraestruturais da plataforma. O argumento central é que, nas condições de plataformização da sociedade (van Dijck, Poell & de Waal, 2018) e sob um regime de plataformização, dataficação e performatividade algorítmica (Lemos, 2021), a experiência migratória tende a converter-se em produto mediático e em valor circulável no mercado da atenção (Davenport & Beck, 2001).

Essa conversão insere-se num processo de “plataformização da produção cultural”, em que a criação passa a depender de infraestruturas privadas, regimes de visibilidade e modelos de monetização que reorganizam o que é produzido, como circula e o que se torna sustentável (Poell et al., 2022). Assim, fazer vídeos sobre “viver em Portugal” não diz respeito apenas à partilha de experiências; significa também exercer uma forma de creative labor, isto é, um trabalho cultural marcado pela ambivalência entre realização e precariedade, sob formas de controlo e disciplinamento que, no YouTube, se materializam em métricas, rotinas de produção e imperativos de desempenho (Siciliano, 2021).

A partir desta lente, o estudo entende a criação de conteúdo como um tipo de trabalho digital (van Doorn, 2017) e analisa como a plataforma participa na composição das narrativas migratórias e da configuração do trabalho dos criadores, bem como nos efeitos públicos desse conteúdo sobre imaginários, decisões e expectativas.
O YouTube foi escolhido como plataforma principal de observação e análise por reunir três dimensões nítidas: uma produção sustentada de conteúdos migratórios por brasileiros em Portugal desde a intensificação do fluxo a partir de 2017; disponibilidade pública de vídeos e metadados, permitindo acompanhar continuidades e inflexões; e um ecossistema de monetização e “profissionalização” que evidencia a conversão da experiência migratória em conteúdo e trabalho digital.

Para compreender esta rede sociotécnica, a investigação adotou uma perspetiva neomaterialista, que recusa separar “o social” do “técnico”. Em vez de tratar o YouTube como simples ferramenta ou cenário, o estudo analisa a plataforma como participante fundamental na produção do fenómeno. A base teórico-metodológica articula a Teoria Ator-Rede (TAR) (Callon, 2001; Law, 2008; Latour, 2012, 2015) com a Metodologia Neomaterialista da Comunicação Associal (Lemos, 2020), mobilizando uma cartografia em quatro etapas: modo (delimitação do problema), inventário (mapeamento dos actantes), transdução (identificação das mediações) e reagregação (síntese em resultados propositivos).

A partir dessa orientação, o desenho da pesquisa combinou a observação online de 32 canais (durante dois anos e quatro meses) com uma análise material-discursiva (Barad, 2007; Kitchin & Dodge, 2011) da plataforma e seus dispositivos de orientação a criadores (com destaque para a página YouTube Creators). A componente empírica foi complementada por entrevistas semiestruturadas com criadores, além de conversas informais com brasileiros que migraram para Portugal, relacionando rotinas de produção, expectativas de audiência e condicionantes infraestruturais.

Os achados mostraram que, no Youtube, a imigração se torna um eixo temático altamente produtivo porque responde a uma procura intensa por orientação: documentação, emprego, habitação, custo de vida, escola, adaptação, etc. Este repertório informativo convive com um repertório afetivo-identitário: recomeços, comparações entre países, vida familiar, conquistas e frustrações. Assim, os canais atuam como uma ecologia informativa e afetiva que ajuda a reduzir incertezas e a construir “roteiros” de decisão e a estabelecer referências simbólicas sobre o que é “viver em Portugal”. Ao mesmo tempo, essa ecologia tende a estabilizar imaginários sobre a imigração e sobre o país de destino, reforçando certas expectativas e silenciando outras dimensões menos comunicáveis ou menos “performáveis”.

Nesse sentido, idealização e crítica coexistem no mesmo campo de visibilidade. Há canais que reforçam expectativas de segurança, qualidade de vida e oportunidade; há outros que tematizam precariedades, barreiras burocráticas, custos, frustrações e dificuldades de integração. Contudo, essas narrativas são sempre ajustadas a dinâmicas de engajamento que favorecem formatos emocionalmente intensos, títulos e miniaturas estrategicamente apelativos e uma gestão cuidadosa da própria imagem (sucesso, autenticidade, proximidade, superação), adaptada aos modos de circulação e recomendação da plataforma.

O tema da imigração articula-se com publicidade, afiliados, parcerias e promoção de serviços e produtos associados ao processo migratório (por exemplo, consultorias, serviços jurídicos e imobiliários). Desse modo, os canais participam de um mercado de mobilidade: oferecem informação que pode apoiar planeamento, adaptação e integração, mas também convertem a experiência migratória em oportunidade de negócio, numa lógica em que informação e consumo se entrelaçam.

Do ponto de vista do trabalho digital, este arranjo produz vulnerabilidades específicas. Ao mesmo tempo em que a plataforma viabiliza a agência dos criadores, impõe restrições que tornam a relação com a plataforma estruturalmente instável. Métricas, dispositivos e práticas de gestão criam condições para renda e reconhecimento, mas expõem também os criadores a precariedades e incerteza: o desempenho do canal depende de variáveis em larga medida fora do seu controlo, e a promessa de autonomia vem acompanhada de exigências contínuas de adequação a padrões e normas em permanente atualização. Esta instabilidade é um traço constitutivo do ecossistema para o qual criar conteúdo implica uma forma de empreendedorismo e autogestão que só se sustenta mediante investimento constante de tempo, energia e competências, num regime em que visibilidade e receita podem oscilar abruptamente.

Neste sentido, a rede de atores mapeada revela uma trama de relações que molda práticas e sentidos em torno da imigração. A lógica algorítmica participa ativamente na definição do que circula com mais força: influencia quais vídeos são recomendados, que temas ganham tração e como o canal se torna (ou deixa de se tornar) monetizável. As mediações tecnológicas funcionam, assim, como filtros e aceleradores: facilitam a disseminação de determinados conteúdos e condicionam escolhas editoriais e estéticas, orientando os criadores para formatos, ritmos e enquadramentos mais compatíveis com a gramática de atenção da plataforma. Ao mesmo tempo, essa dinâmica exige adaptação permanente a mudanças de regras e critérios de ranqueamento, tornando visível a agência de elementos não humanos na rede: sistemas algorítmicos atuam de forma opaca, modulando o alcance, enquanto os criadores respondem às expectativas da audiência, se ajustam às políticas e buscam oportunidades com anunciantes.

A experiência migratória mediada pelo YouTube emerge, portanto, de um entrelaçamento de interesses pessoais, comerciais, políticos e tecnológicos que coproduzem aquilo que se torna visível, desejável e “explicável” sobre migrar. Em síntese, o estudo sustenta que o YouTube participa ativamente da dinâmica migratória contemporânea ao converter experiências de mobilidade em valor circulável e ao organizar a visibilidade das narrativas por meio de incentivos de mercado e infraestruturas opacas. Nesse processo, youtubers brasileiros em Portugal atuam como mediadores do fluxo migratório, oferecendo orientação e apoio simbólico, mas inserindo-se num regime de trabalho intensivo, competitivo e marcado por instabilidade.

Ao produzir conteúdos sobre “viver em Portugal”, o criador participa simultaneamente numa rede de apoio e numa economia de atenção, onde visibilidade, credibilidade e receita são moduladas por sistemas, regras e recomendações da plataforma. A exigência de produtividade e autenticidade intensifica a exposição da vida privada e acentua tensões entre identidade pessoal e persona pública (Abidin, 2018), num cenário em que empowerment e exploração podem coexistir (Srnicek, 2017; Gillespie, 2018).

Reconhecer o papel destes canais na circulação de informação e no apoio à integração é importante; mas é igualmente necessário problematizar os custos desta mediação quando ela depende de infraestruturas digitais que escapam ao controlo dos sujeitos. Assim, compreender a comunicação em torno da migração hoje exige olhar, ao mesmo tempo, para pessoas, políticas e plataformas, porque é nessa articulação que a experiência migratória é convertida em conteúdo, audiência e valor.

Referências

  1. Abidin, C. (2018). Internet Celebrity: Understanding fame online. Emerald Group Publishing.
  2. Barad, K. (2007). Meeting the Universe Halfway: Quantum Physics and the Entanglement of Matter and Meaning. Duke University Press.
  3. Callon, M. (2001). Actor Network Theory. In International Encyclopedia of the Social & Behavioral Sciences (pp. 62–66). https://doi.org/10.1016/B0-08-043076-7/03168-5
  4. Davenport, T. H., & Beck, J. C. (2001). The attention economy: Understanding the new currency of business. Harvard Business School Press.
  5. Gillespie, T. (2018). Custodians of the internet: Platforms, content moderations, and the hidden decisions that shape social media. Yale University Press.
  6. Latour, B. (2012). Reagregando o social: Uma introdução à teoria do ator-rede. EDUFBA; EDUSC.
  7. Latour, B. (2015). Uma sociologia sem objeto? Revista Valise, 5(10), 165–187.
    https://seer.ufrgs.br/index.php/RevistaValise/article/view/61073/35940.
  8. Law, J. (2008). Actor-network theory and material semiotics. In B. S. Turner (ED.), The new Blackwell companion to social theory (pp. 141-158). Wiley-Blackwell.
  9. Lemos, A. L. M. (2020). Epistemologia da comunicação, neomaterialismo e cultura digital. Galáxia, (43), 54–66. https://doi.org/10.1590/1982-25532020143970
  10. Lemos, A. (2021). A tecnologia é um vírus: Pandemia e cultura digital. Editora Sulina.
  11. van Dijck, J., Poell, T., & Waal, M. (2018). The platform society. Oxford University Press.
  12. Kitchin, R., & Dodge, M. (2011). Code/Space: Software and everyday life. MIT Press.
  13. Poell, T., Nieborg, D., & Duffy, B. (2022). Platforms and cultural production. Polity.
    Siciliano, M. (2021). Creative control: The ambivalence of work in the culture industries. Columbia University Press.
  14. van Doorn, N. (2017). Platform labor: On the gendered and racialized exploitation of low-income service work in the ‘on-demand’ economy. Information, Communication & Society, 20(6), 898-914. https://doi.org/10.1080/1369118X.2017.1294194
  15. Srnicek, N. (2017). Platform capitalism. Polity Press.